Tendo Coca-cola e vina, eu e o Pedro estamos garantidos. Aprendi fazer um arroz de forno como vina... não dá trabalho nenhum e fica maravilhoso... Fiz uma salada de rúcula para acompanhar. Quando estamos sozinhos, primeiro dou de comer a ele e depois me sirvo... como ele come o dele e depois belisca o meu, já sabia que quando ele visse a rúcula inteira no meu prato, mais que de pressa me roubaria algumas folhas. Não sei se ele faz isso para me imitar ou se realmente gosta de rúcula...
Essa cena me remeteu a um dos episódios mais marcantes da minha adolescência:
Rua da Glória, ano 1990.
Enquanto menina, sempre fui magra, embora comesse muito bem e de tudo. Não gostava muito de doce, acho até que não gostava mesmo de doce.
Me lembro dos lanches que tinham na casa da vó Gilda, depois que as velhas amigas iam embora, era hora dos netos comerem os "restos". Sempre tinha um bolo de suspiro com morangos que era a sensação de todos, menos de mim... sei lá o porquê. Outra situação que me lembro sobre doces está ligada ao vô Joãozinho. Sempre que nos encontrávamos na casa do pai, meu vô gostava de brincar comigo dizendo que me daria ambrosia... ele sabia que eu ficava com nojo e dava muita risada de mim.
Ambrosia é um doce de ovo, com calda ultra doce... nunca mais vi esse doce... ainda bem.
Bom, explicado meu gosto, volto ao ano de 1990.
Se doce não era minha preferência, algo que eu gostava muito era comer coisas azedas... pepino em conserva (me lembro de comprarmos na feira de sábado um que nunca mais encontrei igual), limão com sal e salada... muita salada.
Um dia, depois de ter arrumado a cozinha fiz uma salada de repolho com maionese, levei para o meu quarto e comi. Delícia... mas esqueci o prato debaixo da cama e a Marion viu. O que tive que passar por causa disso foi um absurdo.
Só posso acreditar que ela achava que eu comia saladas para ser magra e assim afrontar sua gordura... tamanha foi sua ira.
Apanhei muito nesse dia e de castigo ela me disse que se eu queria ser magra então agora ela ia me ajudar... e me deixou sem comer por dois dias inteiros... me lembro de ter comido apenas um pão, que a Gisele conseguiu levar pra mim, escondido. Absurdo dos absurdos.
Fico aqui tentando me lembrar da reação do Ney nessa situação, mas não lembro nada...
Algumas vezes ele vinha falar comigo e me dizia que eu tinha que rezar para pedir ajuda pra Deus, mas ele não fazia nada por mim... pelo menos eu não via.
O Ney Schimmelpheng era meu padrasto... eu gostava muito dele... acho que gostei mais dele do que da Marion. Pensar nele, agora me fez chorar... Mas ele não fez nada pra me ajudar e eu não sabia que deveria ter pedido ajuda..
No final dos dois dias de jejum, a Marion me chamou para que eu comesse...
Ela tinha encomendado um cento de bombons recheados com morango, me fez quebrar jejum comendo doce... Por que ela fez isso comigo??? Meu Deus por quê??
Esse episódio aconteceu há 22 anos e eu ainda sofro com ele... Todas as vezes que faço salada de repolho ou que como um bombom, me lembro... Ela foi cruel.
Meu peso na época era 45 quilos... hoje que estou mais gordinha estou com 50... nunca fui gorda, não como mais nada com vinagre, porque não gosto mais do gosto... as verduras são temperadas com limão aqui em casa... e nem por isso engordei... do fundo do coração... nunca me alimentei para afrontar a obesidade da Marion ou da Gisele.
Hoje, até gosto mais de doce...
Preciso aprender a não sofrer com essas lembranças.
Ambrosia
ingredientes
- 1 lata de leite condensado
- ½ litro de leite
- 4 ovos
modo de preparo
Leve ao fogo o leite condensado com o leite e deixe ferver em panela
de fundo largo, e reserve. Bata as claras em neve, acrescente as gemas
uma a uma, e continue batendo até que fique bem leve. Despeje no leite
fervendo e deixe cozinhar em fogo baixo. Quando a parte de baixo
estiver cozida e firme, corte em quatro e vire os pedaços com o auxílio
de uma espátula, para que cozinhem por igual. Retire do fogo e coloque
em compoteira. Acrescente cravo e canela. Sirva o doce gelado.
Não sei se essa receita é boa, também nunca saberei... me recuso a comer...
PS para o neto-escritor: Vina é o nome que nós paranaenses do leste e sul, damos para a salsicha.
Pelo pouco que sei sobre variantes linguísticas, vina vem no alemão vina wurst... vou pesquisar melhor sobre esse regionalismo...

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