Como bom terapeuta, ele ficava me ouvindo 90% do tempo. De música, me lembro apenas uma vez que ouvi. Das 10 sessões, apenas uma... se dependesse de mim, teria que mudar o nome da terapia. Hoje sei que perdi dinheiro em perder nosso tempo com o Moacir.
Na época tudo o que me movia era a paixão que eu tinha.
Lembro que quando eu chegava das sessões, encontrava um Moacir emburrado e afastado. Eu tentava fingir que não estava percebendo seu desgosto pelas sessões, dizia que precisava ir até o final, pois já havia pago tudo. Ele muitas vezes sugeriu que eu tinha um caso com o terapeuta, do contrário facilmente pediria meu dinheiro de volta, visto que não estava surtindo efeito algum.
Eu pensei mesmo em não ir mais, mas uma força maior me fez permanecer.
Quando chegava das sessões eu deitava por alguns minutos no colo dele para descansar e logo em seguida ia preparar a janta. Numa dessas deitadas pude sentir que ele fez o sinal da cruz nas minhas costas. Esse gesto não seria nada se não fizesse parte de uma crença do Moacir.
Ele acreditava enfraquecer o inimigo fazendo esse sinal em suas costas. Me lembro perfeitamente bem que meio sonolenta levantei de sobressalto e olhei em seus olhos assustada. Ele fez como se nada tivesse acontecido. Questionei, mas acabamos a discussão com ele me dizendo que as sessões realmente não faziam o menor efeito.
Numa outra vez, cheguei correndo e fui preparar uma sopa de feijão com macarrão que ele adorava.
Acabamos a janta numa situação muito chata. No prato dele, justo no dele, tinha um cabelo meu. O Moacir empurrou o prato com nojo e ficou sem jantar. Perguntei se queria que eu fizesse alguma outra coisa, mas ele se recusou.Visivelmente tinha medo de mais cabelos... ao lembrar disso agora, me sindo angustiada... Minha comida, minha casa, meu cabelo, minha vida e ele me humilhando. Os meninos em silêncio absoluto e eu sofrendo por dentro.
Num outro dia enquanto eu cortava cebolas ele fez o seguinte comentário enquanto olhava minha ação:
"Esses dias lá no quartel o soldado tava cortando cebolas desse jeito e eu perguntei se ele estava fazendo comida pra porco."
Que graça teria de viver com uma pessoa assim? Só muito mais tarde eu iria descobrir o porque de me submeter a algo tão cruel.
O Marcelo começou a me atender na sua casa, num consultório nos fundos. Essa mudança se deu justamente com o início do meu tratamento. Olhando daqui, posso até acreditar que era providência divina.
Sua casa ficava na mesma rua do quartel dos bombeiros. E mesmo assim só passei lá uma única vez.
E não houve necessidade de mais nenhuma...
A essa altura eu já tinha todos os telefones do terapeuta que me recomendou ligar a qualquer hora, caso precisasse.
E eu liguei uma hora depois...
Antes de voltar para casa, resolvi passar no quartel para dar um beijo no Moacir.
Ele veio me receber com uma certa impaciência que me incomodou. Perguntei-lhe o que estava fazendo e ele rispidamente me disse que estava cadastrando umas ocorrências no computador.
Pedi para ver, algo ali estava meio esquisito. Sua agressividade sem nenhuma justificativa me convidava a entrar.
"Posso ver o que você está escrevendo?"
"Por que? São ocorrências, estou no trabalho."
"Sim, eu sei, mas eu gostaria de ver."
"Não, você não quer ver as ocorrências, mas se estou conversando com alguma mulher. Estou de saco cheio de seus ciumes."
"Posso?"
"Vá, mas fique sabendo que se você entrar, estará tudo acabado entre nós."
"Tá, eu aceito correr o risco."
Não precisei de mais do que um minuto para constatar que o que ele estava fazendo era outra coisa, bem diferente.
No computador, estava aberta a página de emails pessoais dele e pude logo perceber que ele vinha trocando emails com uma mulher.
No que consegui ler, dizia que ele não podia continuar os encontros, pois queria ficar só por um tempo, por causa das dívidas. Não pude ler mais nada. Ele entrou na sequência e desligou o computador da tomada.
Levantei, olhei em seus olhos e disse:
"Valeu a pena pagar o preço!"
Saí do quartel sem fazer nenhuma cena de mulher traída.
Mas isso duraria pouco tempo.
Como cheguei em casa nesse ou em outros dias de angustia e ansiedade em grau elevado, não sei, mas o fato é que cheguei e num rompante de fúria arranquei os auto-falantes e o rádio do carro que eu tinha comprado. Tudo a meu jeito, destruindo tudo. Liguei para o terapeuta para ver o que eu devia fazer para me acalmar e só lembro de ouvi-lo dizer que achava que eu demoraria mais tempo para ver o que estava acontecendo, que eu estava de parabéns. O certo seria tomar um banho e fazer o exercício de respiração.
Claro que passados alguns dias, o Moacir me dobrou e estava aqui em casa novamente e ainda me culpando de ter feito estragos no seu carro.
Engraçado que quando estamos doentes da alma, não enxergamos o óbvio e nos deixamos levar por aquilo que queremos que seja verdade. Isso tudo é inconsciente.
Comecei a tomar remédio antidepressivo fortíssimo.
A essa altura a minha antiga ajudante já tinha ido embora de casa e quando me viu na rua, me abraçou e disse:
"Roxana, como você está feia, abatida e sofrida. Menina largue mão dessa vida. Pare com esses remédios. Você tem 2 filhos que precisam de você."
Não ouvi nada... As doenças da alma nos fazem egoístas e cegos.
O remédio me alterou todas as funções. No primeiro dia que o tomei estava na escola, aproveitei o lanche das 10. Exatos 30 minutos comecei a passar muito mal. Tudo girava e eu me senti tonta. Não pude continuar na escola. Voltei pra casa e passei o sábado todo de cama.
Perdi o desejo sexual e a fome. Esquecia o que estava fazendo e não tinha ar para concluir uma explicação na aula. E apesar de todos esses sintomas e do meu terapeuta me alertarem eu achava que esse era o caminho. Precisava me curar para poder merecer o Moacir e dar para os meninos uma família de verdade.
As reações eram muito fortes e eu mesma decidi que ia parar de tomá-lo algum tempo depois. Fiz essa escolha, pois não vi resultado algum na nossa vida conjugal.
Continuei a sessões somente até a que eu já havia pago. Outras não me pareciam úteis. Cheguei a essa conclusão, mesmo depois do Marcelo me contar que o Moacir o havia procurado para contar sua "versão" da história. Como se isso fosse necessário.
O Marcelo me alertou de todas as formas, mas eu ainda achava que todos estavam conspirando contra minha felicidade, menos o Moacir.
A única coisa boa dessa loucura foi que perdi peso. Estava com 45kg e me achava ótima. Há quem diga que eu parecia um zumbi.
Sem terapeuta, sem pais para me proteger voltei a ficar exatamente como o Moacir queria... sozinha para ele continuar a sua tortura.
E obteve resultados muito proveitosos para sua mente doentia.
A terapia só funciona se a pessoa quiser
Tem sido muito ruim falar desse assunto. Mas certamente vai me fazer lavar a alma definitivamente.
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