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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Freud é cheio de esquemas. Ele sempre encontra respostas dentro da família para as consequências, muitas vezes desastrosas, que vamos encontrando pelo caminho. Até minha terapeuta que segue uma outra linha de análise, acaba correndo para debaixo das asas de Freud quando não consegue encontrar na teoria do comportamento respostas para suas e minhas dúvidas.
Com essa magnífica introdução quero expor um pouco do comportamento maníaco-compulsivo- doentio do meu progenitor. Não precisa ser um gênio na psicanálise para saber que eu estou escolhendo errado por causa de algo lá do passado que me influencia hoje. Pensando sobre isso, fiz um trato comigo: De agora em diante minhas sessões de terapia serão apenas para resolver questões com mais de 20 anos. Chega de tapar buracos. Vamos abrir as valetas e colocar manilhas. Daqui para frente tudo vai escoar em lugar certo.
Bem, nessa primeira viagem rumo as feridas abertas do passado vamos aterrissar em 1991.

Maringá
Eu tenho 15 anos, sou uma menina frustrada. Não gosto dessa cidade cheia de árvores. As ruas sempre acabam numa rotatória que nos levam a outra rotatória. Aqui tudo parece projetado. A cidade primeiro foi feita, depois vieram as pessoas. Tão diferente da minha Curitiba com ruas truncadas e imensas avenidas. Minha vinda para Maringá foi algo mais do que previsto. Era apenas uma questão de tempo. Mas estar aqui, recomeçar a vida numa casa diferente com pessoas diferentes não é tarefa nada fácil. Quantas coisas ruins tenho vivido. Quantas infindáveis noites que passo sentada a mesa da cozinha ouvindo os brados bêbados de meu pai.
"Sabe quanto custa essa luz que você acende?"
"Você está aqui porque a tua mãe não quer mais você lá. Ela enganou você"
"Vocês não sabem nada da vida."
Depois do trabalho, seja 18, 20 ou 23 horas meu pai chega alterado e lá vamos nós. Pizza e ladainha.
A pizza é sempre de aliche e alho e óleo. Detestável. As conversas sempre giram em torno da decepção de um pai exemplar com suas filhas e enteada adolescentes.
O Brasil está empolvoroso com as maluquices políticas que surgiram já com o primeiro presidente da era democrática e nós em casa ouvindo sermões eternos. Não entendo nada de política, não entendo nada de nada. Vou para a escola de manhã e a tarde fico sem fazer nada. Não estudo, não me interesso por nada, não tenho roupas novas e meus sapatos já estão começando a dar sinal de falência. Meus pai não me enxerga. O aparelho nos dentes não sabem mais o que é manutenção e médico ou remédios são palavras inexistentes no convívio familiar. Me sinto e de fato estou abandonada.
Minha madrasta é 10 anos mais velha do que meu pai e isso a incomoda muito. A mim também. Não pela idade, mas pela menopausa em pleno vapor que faz dela uma pessoa mais horrível do que ela já é. Suas roupas e acessórios que não se combinam entre si, acrescidos da mania cafona de frequentar bingos diários faz dela uma pessoa sem nenhum atrativo social. Não gosto dela e a reciproca é verdadeira. Claro que estou convivendo com ela em 1991, não posso desafiá-la ou lhe ser mal criada como gostaria. Ficamos então no nível do suportar uma a outra para evitar problemas maiores. Já nos chega os que temos. 
Não tenho pena dela, acho mesmo é que é bem feito. Achou que tava fazendo um bom negócio se envolvendo com meu pai. Bobinha.
Quando ela sai ou viaja é bem gostoso ter a casa só para mim. Posso ouvir música alta e dançar. Leio a tarde toda e não me preocupo com arrumar a casa. Adoro quando eles esquecem a porta do quarto deles destrancada. Além de rir muito do esquecimento aproveito para fuçar em gavetas e armários. Meu pai coleciona revistas de mulher pelada embaixo do colchão. Eu, sinceramente, não entendo uma mulher que aceita isso. Tá certo, homens adoram uma pornografia, mas em baixo do colchão que ela dorme? Acho meio masoquista. Dez anos mais velha, 50 kg mais gorda...
Pena que inteligência não seja o forte de uma menina de 15 anos. Se eu fosse uma investigadora nata, teria feito altas descobertas. Achei algumas poucas coisas que só farão algum sentido muitos anos para a frente. E a única descoberta realmente frutífera foi sobre minha origem. Eu descobri uma carta que comprovava que sou realmente filha do meu pai. Só isso... não foi grande novidade, meus traços físicos já me diziam isso no espelho.
Hoje, estou sozinha em casa. Minha madrasta foi viajar. Parece que minha irmã aprontou alguma das dela. Estava enganando todo mundo. Não ia para a faculdade. Meu pai enlouquecido mandou-a de volta com os avós, Claro. Nossa família tem essa tradição: Não dão conta da educação da gente, tratam logo de mandar pro outro. E junto com o filho delinquente ia uma carta culpando o outro pela criação errada. Meus avós criaram minha irmã mais velha. Meu pai, o filho caçula, era muito jovem para perder seu futuro de advogado cuidando de uma criança que veio sem ser planejada. Essa decisão dos meus avós fez com que meu pai nunca mais planejasse nada na vida e vai ver que foi por isso que ele foi exonerado do funcionalismo estadual e perdeu tudo na vida.

Preciso parar, fazer almoço para os filhos. Sábado chuvoso e friozinho... adoro.


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