Quando você tem lembranças claras de momentos preciosos com seu filho... momentos como a troca de fraldas, a primeira febre, a primeira noite em claro velando o sono do nenezinho frágil... As angustiantes horas de insônia esperando a doença ceder espaço aos medicamentos... as intermináveis inalações... e os incontáveis medicamentos para alergia disso, daquilo e daquele outro...
Quando você tem essas lembranças, tudo é muito mais difícil...
Ver seu filho se transformando num zumbi é das dores mais difíceis de viver...
Vê-lo igual suas roupas se transformando em trapos tão rapidamente é das dores mais insuportáveis...
Ontem eu disse para Deus que não estou suportando... e não estou mesmo.
Levei por várias vezes comida para que o João Guilherme tivesse o que comer, visto que não cumpriu seu trato de se sustentar...
Foi, supostamente, assaltado... digo isso, porque sei que todo o pensamento ruim que posso ter, é absolutamente possível...
Ontem fui buscar os potes...
Mãe, não deu tempo de lavar...
Não, era infinitamente pior que isso...
Era comida podre... armazenada por semanas a fio dentro de embalagens plásticas... cheias de vermes e larvas... o cheio horrível que permanece em mim, me faz lembrar do horror do confronto de realidades...
Do quanto lutei para lhe dar o melhor...
Do que recebi e tenho recebido diariamente em troca...
Ninguém aqui é capaz de saber o que sinto...
Só uma mãe como eu pode dizer algo...
Só Deus pode entender...
O que a senhora me sugere?
Tudo o que tenho são ideias inviáveis e impossíveis... colocar grades nas janelas e algemar meu filho no quarto...
Vivendo como bicho, já está... agora o que estou tentando acreditar é que posso domesticá-lo... sei que não posso... e não vou
Somente Deus, em sua insondável sabedoria poderá restituir a humanidade do meu filho...
que as drogas tiraram.
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