Ontem, enquanto eu esperava um lanche fui até um alpendre que me lembrou um aeroporto e essa sensação me lembrou do dia em que eu estava indo para São Paulo e fiquei por horas esperando o tempo melhorar e a gente poder decolar rumo ao transplante de córnea. preciso parar agora para puxar da memória que ano era... não lembro...
Era 1986. Não me perguntem o mês, não posso saber... realmente não me lembro. Sei apenas que o tempo estava feio e precisamos esperar por horas...
Eu tinha feito uma consulta uma semana antes com o então melhor médico do país. saímos da consulta com a possibilidade de ter que retornar dali 3 meses para recomeçar a busca pelo doador.
Estávamos almoçando quando o telefone tocou. Tragam a Roxana ainda hoje, achamos o doador. Vocês conseguem chegar até às 17:00hs?
Sim, vamos pegar o primeiro voo...
Mas o primeiro voo demorou muito para ser liberado. Só chegamos em São Paulo às 22:00hs.
A córnea foi congelada. O transplante seria na manhã seguinte.
Do tempo de espera, me lembro do Ney com pena de mim... ele me deu uma caixinha de chiclete que naquela época a gente acreditava que era chiclete de adulto. ACTION.
Eu era a pessoa mais importante naquele dia. A marion acompanhava tudo como uma mãe zelosa. Não me lembro nada diferente disso.
Quando chegamos ao hospital, o Ney se deitou na cama que deveria ser minha. Quando a enfermeira nos flagrou, fez o coitado sair. ESSA CAMA É PARA A PACIENTE.
Demos risada da vergonha que ele passou... certamente ele fez de brincadeira para tentar me tirar no medo que supunha que eu estivesse. Eu não sei se eu estava com medo. Acho mesmo que não...
No dia seguinte, bem cedinho fui para a mesa de cirurgia... disso me lembro muito bem...
As luzes saiam de um treco que parecia uma forma de pudim gigante. O médico pedia fio e agulha de sutura... dormi ao ouvir isso e só acordei muito tempo depois...
A cirurgia durou 6 horas e meia, mas foi um sucesso.
A única dor que senti foi de uma das centenas de injeções que me aplicavam... uma delas especialmente desceu para minha perna e senti uma dor horrível... nos olhos não senti nada...
Meu doador foi um rapaz que morreu num acidente de moto aos 17 anos... só isso sei dele...
Uma das pessoas mais importantes da minha vida e eu não sei nada sobre ele...
Meus amigos, no início, tinham medo de mim por carregar uma córnea de um morto... eu também tive esse medo. Acho que minha família cuidou disso com carinho, pois o medo logo passou.
Fiquei poucos dias no hospital, mas tivemos que permanecer em São Paulo por mais algum tempo por causa das reações do meu organismo. O médico queria acompanhar...
Ficamos no hotel Vila Rica. Em outras ocasiões que também se relacionam com meu transplante, ficamos nesse mesmo hotel.
Lago do Arouche...
Fui ao museu do Ipiranga com o curativo imenso no olho. Um bêbado ficou com pena e deu um dinheiro para a marion comprar uma coca para mim... isso foi motivo de grandes risadas entre nós... Nesses dias eu fui o centro das atenções da marion e do Ney...
O Ney era um padrasto e tanto... gostava de mim... me defendia e me protegia...
Já devo ter dito isso... porque isso talvez tenha sido o motivo da marion ter se tornado o monstro que se tornou...
Nunca mais o vi...
Uns 15 anos atrás falei com ele... mas o tempo e a distância são cruéis...
Lembro dele com muito carinho...
Voltei a São Paulo muitas vezes mais depois do transplante... em todas elas eu tinha medo da violência...
Foi esse medo que me impediu de seguir a Rita e optar por casar com o João.
São Paulo é muito grande... eu tenho medo de ser assaltada...eu tenho medo de me perder.
Não fui...
Depois de casada fui muitas vezes... visitar a Rita... era bom, mas ainda assim eu me sentia com medo...
Nunca mais fui... Quem sabe um dia eu não vá dirigindo até Santos para visitar a Rita e passe por São Paulo... Por que não?
31 anos se passaram do transplante... ele foi perfeito... não tive reação e mesmo com o prazo de validade vencido, ele ainda está em perfeito estado...
Meu médico está vivo e trabalhando até hoje... Dr Edson Ando... Essa também é uma das pessoas mais importantes da minha vida...
A quem devo tudo que vejo...

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