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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tem muitas coisas que me perturbam, mas algumas tem um dom especial de me chatear. Uma delas é o fato de eu não poder contribuir para o bem de pessoas que eu amei. Me sentir inútil, ou de mãos atadas me magoam muito.
Por que eu não posso fazer alguma coisa? Me deixa ajudar! Deixa eu cuidar de você... eu posso te proteger... quantas vezes eu disse isso e  não pude fazer nada? Quantas?
Lembro minha adolescência, quando eu tinha um namoradinho, desses namoricos bobos sem a menor importância. O nome dele era Sergio, tinha 14 anos como eu e diziam as más línguas que cheirava benzina. Não sei, nunca vi qualquer alteração nem ele me ofereceu qualquer coisa... Fato é que a Marion me proibiu terminantemente de namorá-lo. Proibir um adolescente é o mesmo que incentivá-lo. Continuei o namoro e fui sendo punida de todas as formas por causa disso. Desde apanhar diariamente com um ferro, até ser proibida de ir à escola terminando com a minha fuga e a culminando com a minha ida para Maringá.
Talvez hoje não seja o momento de falar de tudo isso, porque o que me motivou a escrever hoje foi a minha fragilidade em ajudar as pessoas... quero correr o tempo desse assunto para o dia em que voltei pra casa depois de ter passado 2 dias na casa da minha professora de português que se chamava Lya e era mãe de dois amigos meus. 
Quando minha "mãe" foi me buscar se fazendo de preocupada com meu sumiço, quase acreditei que de fato ela queria o meu bem, mas foi só chegar em casa e perceber o que realmente ela tinha para mim.
Meu quarto estava as avessas e uma mala velha continha as poucas coisas que ela me permitiria levar embora. Já estava traçado o meu destino: Casa do pai. Maringá.
Minha reação foi pegar uma caneta e começar a escrever do que eu estava sentindo. Me lembro de dizer que nunca usei, nem usaria drogas e que me sentia muito triste por minha "mãe" não acreditar em mim. 
Eu dizia ainda que meu desejo era, quando adulta, trabalhar em uma clínica para dependentes químicos. Dobrei aquela montanha de papel e coloquei entre as telhas do telhado que apareciam no meu armário daquela casa triste da rua da Glória. Certamente quando fui embora meus escritos foram achado, porque era essa minha intenção mesmo e ridicularizados como tudo o que eu fazia era ridicularizado. 
Não me lembro direito, mas me parece que alguma vez depois minha irmã comentou que a mãe tinha chorado ao ler o que eu escrevi. De que me adiantariam suas lágrimas, eu precisava de amor, proteção e cuidado e isso ela não me deu.
No dia seguinte meu pai viria me buscar... dois dias depois eu estaria em uma outra cidade, numa outra vida e com o Sérgio eu só voltaria a falar uns 15 anos depois, quando ele me achou no Orkut. 
Era um namoro, de fato, sem a menor importância... mas nas mãos da Marion se transformou num pesadelo sem tamanho. O Sergio não tinha dado certo na vida ainda, tentou vários empregos e começou várias faculdades... quando nos falamos ele cursava Letras... ele seria professor de português como eu e a professora Lya... Coincidências da vida... 
Ele me contou que no passado se sentiu muito assustado com o que houve e que não sabia o que fazer e eu apenas o confortei dizendo que ele não tinha sido o complicador de nada... o que tinha acontecido, aconteceria por qualquer outro motivo... a vontade da Marion já tinha se definido e o Sérgio só foi o degrau oportuno e necessário. 
Ele ficou feliz por ver que não teve culpa... nunca mais nos falamos... 
Mas eu nunca soube se ele usava benzina, nem nunca trabalhei em clínica de reabilitação... 
Mas tive outros momentos em que me envolvi com dependentes químicos e não os pude ajudar...
Comecei escrevendo em lágrimas e ao lembrar da história do Sérgio fui me acalmando... nem vou continuar falando hoje... 
Quero falar do Fábio, meu colega do IAP que morreu de overdose. Fiquei sabendo de sua morte pelo Jornal Nacional, foi horrível... e o que eu fiz por ele? NADA... 
E do Marcos Zampieri, o superman do IC que também já faleceu vítima de complicações com uso de drogas e que não pude fazer nada para ajudar... que merda de gente que não vê que as drogas trazem a morte! Que merda de gente que não se deixa ajudar!
Tenho medo que meus filhos se envolvam com drogas... e eu não possa fazer nada... Deus do céu, que medo!
Angústia e profunda tristeza!

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