Três meses depois de ter me casado, fiquei grávida. Era exatamente isso que eu queria. Naquele momento era assim que eu pensava. Tinha um marido, uma casa e precisava de um filho... Me precipitei, mas não me arrependo.
Quando confirmei a gravidez, me senti feliz... achando que agora tudo estava completo na minha vida
Eu tinha tudo o que sonhava em ter.
Durante a gravidez me senti horrível. A barriga só apareceu quando já estava de 6 meses, afinal os enjoos me fizeram perder muito peso nos primeiros meses. O médico tratava como gravidez de risco... mas tudo foi tranquilo até a hora do parto.
Quando estava com 8 meses, fomos convidados para um casamento. Quando fui ao salão para me arrumar, tive a infeliz ideia de cortar os cabelos bem curtinho, imitando a Cláudia Raia. Fiquei com a cara de uma bola de basquete... nunca me senti tão feia como naquele dia. Para piorar ainda mais, mandei fazer um blazer e uma pantalona que me deixaram com uns 20 anos a mais do que eu tinha.
Achei que não voltaria mais ao meu peso normal... estava enganada.
Parei de trabalhar, exatamente 15 dias antes do parto.
Como a ideia era esperar que o bebê chegasse a seu tempo, ficamos aguardando. Eu tinha um telefone celular para poder avisar alguém, caso estivesse sozinha em casa.
No dia que o Gui nasceu, o João tinha vindo tomar café da tarde comigo e eu perguntei o que ele queria comer no jantar, imaginado que tudo seria normalmente igual aos dias anteriores, mas não foi.
Assim que ele saiu, fui ao banheiro e percebi uma manchinha de sangue, logo comecei a sentir uma dorzinha. Resolvi dormir um pouco para descansar, imaginei que eu tivesse exagerado em alguma atividade daquele dia.
Quando o João voltou a noitinha eu estava deitada e com muita dor. Mesmo assim eu não achava que tinha chegado o dia.
Para mim, o ideal era que o Gui nascesse no dia 5 de outubro e não 30 de setembro. Que adianta ter planos? pra nada... o dia tinha chegado...
A dona Anália ficou comigo até que o João voltasse do colégio... ele não tinha terminado o Ensino Médio, embora estivesse com 23 anos.
Quando ele chegou, as dores estavam mais intensas, era hora de ligar para o médico.
O dr Luiz Antônio mandou a gente ir para o hospital que logo ele chegaria também.
Eramos, eu, dona Anália e o João feito 3 tontos sem saber o que fazer e com medo... Seu Valdomiro nem se deu ao trabalho de ir conosco ao hospital.
Deixamos um cheque na portaria (hoje é proibido por lei]) e subimos para a internação.
Logo apareceu uma senhora pequenininha que se chamava Terezinha e se apresentou como parteira. Não posso classificá-la como uma pessoa agradável ou simpática... nunca mais tive o desprazer de reencontrá-la, mas o que vivemos naquele dia ficou guardado na minha caixa de memórias.
Fui conduzida a uma sala para preparação... fui desagradavelmente depilada e me fizeram uma lavagem intestinal... então entra em cena a pequena Terezinha.
"O dr já está vindo e pediu para que faça um exame de toque para ver como está sua dilatação"
"Relaxe, vou introduzir meus dedos para ver como está."
"Nossa, vai demorar. Você não tem dilatação quase que nenhuma, ainda."
O toque foi de uma indelicadeza... ela me fez levantar e ir andando para o quarto, dizendo que isso me ajudaria a ter dilatação.
Quando o dr chegou, repetiu o toque e constatou que não estava de acordo, mas as contrações estavam constantes, menos de 1 minuto entre elas... eu gritava de dor.
Fiquei algum tempo assim, até que o dr resolveu estourar a bolsa e forçar o parto
lá fui eu para a salinha de parto. A Terezinha ficava dizendo que eu tinha que forçar para que o bebê rompesse a bolsa..."Força"... "Força"... "Vamos, menina, faça força"...
Nada de consegui... então o Dr estourou a bolsa. E imediatamente se desesperou dizendo que precisava da sala de cirurgia. E eu ali parada sem saber o que acontecia... A Terezinha agora gritava para que eu não fizesse força... "Pare de forçar"... "Pare, menina! Seu filho não pode sair assim"
"Você quer que o seu filho morra?"
O Dr me explicou que havia um problema, que o cordão estava enrolado no pescoço do bebê e que se ele descesse, seria enforcado. Portanto era necessária uma cesárea... No corre-corre ele tentou auscultar o bebê e não conseguiu ouvir nada... Eu, a essa altura já estava em pânico e chorando. Implorei para que o Dr cuidasse da gente... o Dr Luiz Antônio era muto amoroso comigo... me sentia protegida por ele...
Já na sala de cirurgia, ainda ouvia a Terezinha berrando comigo... foi então que perdi minha paciência, me virei para ela e disse: "Cale essa sua boca, porque não estou forçando nada, ou você acha que eu faria alguma coisa pra prejudicar meu filho? Não há nessa sala alguém que queira mais do que eu que tudo acabe bem!" Não ouvi mais a voz dela nesse dia. Só a ouvi novamente no dia seguinte quando foi até meu quarto me pedir desculpas porque ela estava nervosa na noite anterior. Desculpei e nunca mais a vi.
Depois do corre-corre tudo deu certo, a cirurgia correu direitinho, apesar de ter passado um pouco do tempo e o Gui ter ingerido liquido com mecônio.
Fui pro quarto e dormi até a manhã seguinte. Me trouxeram o pequeno bebê doze horas depois, e eu não sabia nem o que fazer. Ao mesmo tempo que queria cuidar dele, tinha medo. Eu e o João choramos muito quando ficamos só nós 3.
Ganhei muitas flores, já no hospital... minhas amigas do trabalho foram me visitar, o Edvaldo mandou flores, parentes do João também apareceram por lá.
O Gui nasceu nos primeiros minutos do dia 1º de outubro... se não no mesmo dia do pai, ao menos no mesmo mês.
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