30 de setembro de 2005, sexta-feira. O Moacir levantou cedo e foi para Ponta Grossa se internar, a cirurgia estava marcada para a tarde. Combinamos que depois que terminasse as minhas aulas eu iria para lá ficar com ele. Foi isso que fiz. Ainda estava no centro cirúrgico quando cheguei. Assim que me viu, me disse que eu não deveria ter ido, estava chovendo demais. Que fofo, estava saindo de uma cirurgia e se preocupava comigo.
Assim que chegamos ao quarto, meu telefone estava tocando. Era o João, completamente surtado me dizendo que meu sogro estava na UTI, tinha sofrido um acidente. Demorei alguns instantes até entender de quem ele estava falando. Não eramos mais casado, logo não tinha mais sogro.
Fiquei nervosa com a situação do seu Valdomiro e o Moacir não gostou nada de ter de dividir a cena com ele, embora não tenha dito quase nada sobre isso.
Fiquei no hospital até o horário do último ônibus, cheguei em casa as 22:00 e ainda precisava saber a situação do vô dos meus filhos. Não dormi nada nessa noite.
No sábado era aniversário do Gui, acordei cedo, peguei o bolo que tinha encomendado para ele, me despedi dele e fui para Ponta Grossa. O Moacir saíria do hospital. Pensei que até a hora do almoço estaríamos de volta. Me enganei. Passei o dia inteiro esperando o médico dar alta. Meu coração de mãe estava partido. Meu filho estava completando 6 anos e estava sozinho com a empregada e o Fernando o dia todo. Isso é uma das minhas maiores tristezas. Meus filhos foram os que mais sofreram com essa minha escolha errada.
Lembro de ter saído por um tempo do hospital para tirar dinheiro para o Moacir pagar algumas contas da cirurgia e aproveitei para comprar o presente do Gui. Ao menos voltaria com um pacotão.
Voltamos para casa de carro oficial. Me senti importante. Já era noite quando chegamos. O Moacir estava abatido e precisava de silêncio, não pudemos fazer festa e cantamos parabéns, só nós três, o Moacir não se levantou. Percebi que estava de mau humor. Os meninos estavam quietos. Um pouco pelo tio-bombeiro doente e outro pouco pelo vô que tinha derrubado uma árvore na cabeça e estava em coma.
Os próximos 45 dias foram de licença médica e assim pude conviver com um Moacir cheio de manias e chatices. A cada dia que ele se reestabelecia, a situação ia ficando mais cansativa.
Foi por essa época que as regras foram sendo instauradas aqui em casa.
Os meninos agora tinha hora para dormir, embora nunca tenham passado das 22:00, o novo horário era 21:00.
À mesa, não podia dizer nada. Era hora que comer, apenas.
Tinha que agradecer o alimento dizendo "Deus que ajude"
Não podiam mais brincar com seus brinquedos na sala e nem podiam brigar entre si.
Só podiam se dirigir a mim e a ele por senhor e senhora.
Aparentemente eram regras que ajudariam o convívio familiar, mas logo íamos ver que era uma forma do Moacir se impor como autoridade aqui em casa.
Das poucas vezes que ouvi os filhos dele, nenhuma delas me pareceu que eles tinham sido educados com tanta rigidez.
Uma das meninas engravidou com 16 anos e a outra ia muito mal na escola e usava piercing, o menino era manhoso e mimado.
Mas dos meus filhos ele queria exigir uma educação impecável. Começamos a discutir com muita frequência e a "culpa" sempre era do João Guilherme.
Demorou muito tempo para que eu enfrentasse o problema.
Amargo foi concluir que ele agiu de forma racional o tempo todo.
Quando chegou aqui em casa, estava doente e sem dinheiro. Cuidei dele e o ajudei a reorganizar suas contas. Se reestabeleceu e em novembro já estava com o nome limpo.
Ele comprou um carro e mudou da água para o vinho como num piscar de olhos.
O homem carinhoso e prestativo tinha se tornado um tenente-coronel. Eu e os meninos eramos tratados como soldados. Eu pagando as contas e sendo inferiorizada.
Não demorou muito para que as brigas tomassem rumos mais graves e perigosos.
A essa altura brigávamos por qualquer coisa e ele me irritava muito quando dizia que queria ficar quieto e que não queria conversar comigo.
Eu não entendo que estando dentro da mesma casa, ficaríamos emburrados um com o outro. Pra mim, problemas se resolvem na hora. Mas a essa altura era ele que dava as cartas.
Eu estava começando a adoecer.
Com o carro, começamos a fazer um programa gostoso em família. Íamos pescar.
E boa parte das nossas pescarias acabavam em confusão.E a culpa era sempre do Gui.
Num domingo, fizemos um churrasco na "100 árvores" e voltamos embora num climão porque o peixe que o Gui pescou tinha engolido o anzol. Não aguentei ouvi-lo xingar o menininho de 6 anos e me impus. Nesse momento eu já tinha me arrependido amargamente do erro que tinha cometido.
Mas e a minha reputação? O que os outros iriam pensar? O que meus filhos iam pensar?
Eu tinha errado de novo? Preferi pensar que tudo se resolveria.
O Moacir de antes não bebia praticamente nada, o de agora se mostrou um alcoolatra.
Muitas vezes ia visitar seu filho em Ponta Grossa e voltava alterado.
Já não queria compartilhar suas coisas comigo e se fechava dizendo estar com problemas no trabalho.
Se mostrou ciumento e possessivo e me dava motivos para ter dúvidas sobre sua fidelidade. E quando as discussões eram por esse motivo, acabava me acusando de traição e saindo de casa. Eu ficava enlouquecida de raiva na hora. Queimei suas roupas algumas vezes, coloquei-o pra fora de casa outras tantas e ele então me agrediu.
Poderia ficar relatando cada uma das discussões, mas não quero reviver essas dores. Vou pular disso para o dia que fui chamada na escola do Gui.
- Seu filho está apresentando um comportamento agressivo, está falando palavrões e está com a sexualidade muto aflorada.
Um menino de 6 anos com linguajar e ações de adolescente malcriado.
A pedagoga encaminhou-o para fazer musicoterapia.
Marquei as sessões e o levava até que o Marcelo me pareceu muito bom e então me encorajei de fazer algumas sessões para, como ele disse, arrumar as gavetas da minha vida.
Não as que continham as histórias recentes, mas as antigas. Os traumas de infância, as dores que ainda doíam sem saber.
Nessa época minha avó mandava um dinheiro pra mim e assim pude pagar a terapia.
O primeiro olhar lúcido que damos ao problema, já é começo da solução.
Ia demorar para a cura, mas ela veio.
o príncipe virou bruxo
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