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sábado, 15 de setembro de 2012

Tudo corria bem, mas o Moacir não estava bem de saúde.
As vezes febre, as vezes dores abdominais. Muitos exames, muitas alterações e nenhum diagnóstico. Fomos assim, com medo por alguns meses. Pouco antes de nos conhecermos, ele foi submetido a uma cirurgia para retirada do apêndice.
As dores vinham em crises, eu não sabia  o que fazer e confesso que tinha medo, muito medo.
Numa das muitas consultas o médico perguntou se ele tinha aids, se tinha comportamento de risco. Quando  me contou, percebi um desapontamento em seu olhar. Eu também já tinha pensado nisso e estava em pânico. Era como se um balde de água fria tivesse me acordado do sonho. Enquanto os exames não ficaram prontos, não tive paz. 
Me senti culpada por ter pensado assim. Depois de muitas crises e muitas consultas o médico descobriu que  meu querido maridinho estava com pedras na vesícula e precisava de uma cirurgia. Me angustiei com o diagnóstico. Por que comigo? Por que um homem doente? Por que eu tendo que cuidar e sustentar alguém assim? E a culpa sempre vinha em dobro. Que egoísta e desumana eu era. O homem que me fazia tão bem precisava momentaneamente de meus cuidados. Não era justo que eu o abandonasse agora. Tudo logo acabaria bem. 
E foi assim mesmo que aconteceu.
Mas nem tudo estava um mar de rosas entre nós.
As desconfianças do capítulo anterior já tinham enraizado e agora germinavam vigorosamente em nosso relacionamento. As coisas já estavam mudando de cor.
Para regar a nova "plantinha" um outro episódio, ainda mais assustador. Vamos a ele:
O Moacir não queria que eu conhecesse sua ex-mulher e nem tivesse contato com ela. Justificava isso, dizendo que ela era louca e que provavelmente me agrediria. Mas eu não entendia que isso pudesse acontecer, visto que eles estavam separados há 3 anos. Como uma mulher se sentiria dona de um ex-marido tendo passado muito tempo? Ele sempre dizia que ela era possessiva, desequilibrada. Resolvi que ia ajudá-la. E foi assim mesmo. 
Uma noite, depois do jantar, fomos nós quatro, eu, Moacir, Gui e Fê assistir um desenho na tv. Eu com o Fê num sofá, ele com o Gui no outro, estávamos de mãos dadas e felizes. Mas o telefone dele começou a tocar insistentemente acabando com o ambiente familiar. Deixei os meninos na sala e chamei o Moacir para uma conversa no quarto. 
Depois de muitas ligações da Silvana e de termos discutido sobre a crueldade dela  de não deixá-lo ver seu filho pequeno, resolvi que ele deveria ligar lá e eu queria ouvir na linha a conversa. Prometi que a princípio não iria interferir na conversa. E foi assim que aconteceu depois dele ter esgotado todos os argumentos para me demover da ideia. 
O que ouvi mudou radicalmente a forma que eu via o Moacir.
Ele mentiu pra mim e agora eu estava ouvindo da própria ex-esposa, sem que ela soubesse, sem que ele pudesse freá-la. Do outro lada da linha havia uma mulher angustiada e transtornada pelo abandono repentino do marido, ocorrido há 1 mês apenas.
Soube depois que ela, inconformada com os sumiços do marido e de seus mentiras, deu-lhe um ultimato.
Ele não pensou duas vezes, pegou suas coisas e saiu de casa, sem dizer uma única palavra.
A descoberta me deu um choque de realidade, mas o que fazer àquela hora? Colocá-lo para fora?
Acabar com um relacionamento que já estava público? Me expor? Admitir que cometi um erro gravíssimo?
Preferi acreditar que as pessoas erram, que o casamento do Moacir já estava destruído bem antes do dia 1º de maio, como ouvi ser o dia do ultimato. Desligamos o telefone e ficamos sem palavras os dois.
Por alguns minutos, não tinha nada  que me viesse a cabeça. Estava em frente a um homem desconhecido, mentiroso e traidor.
Se eu não fosse passional, teria calmamente pedido que fosse embora da minha casa e me desse um tempo para pensar. Fiz exatamente o contrário. Mas não foi por paixão, unicamente... Muitos fatores contribuíram para a minha rápida decisão. Só não faço mais besteiras, porque minha capacidade de raciocínio não é muito lerda. Preciso trabalhar essa minha impulsividade... mas isso é assunto para outro momento.
- Olha, Moacir, eu não vou mandar você embora por causa disso, afinal se você era casado, agora não é mais. Só quero saber porque mentiu pra mim. - mostrei ao inimigo todas as minhas armas apenas com uma frase. O que se seguiu foram pedidos de desculpas, olhares de cachorro caído da mudança e juras de amor eterno que nos levaram a terminar nossa discussão na cama. A essa altura, eu não sabia que as pessoas nos observam e nos manipulam com tanta facilidade.
E no outro dia, acordei pensando que aquilo ali não estava certo. Olhe para o homem ainda deitado e sofri. Um sofrimento de não durou nada, pois ele logo acordou e ficou me observando.
- O que foi que está me olhando?
- Nada, é que nunca vi como é lindo uma mulher se arrumando. - Olho para a cama agora e posso vê-lo ainda deitado, apoiando a cabeça nos braços e falando suavemente comigo. Minha reação espontânea foi voltar até e ele e lhe dar um beijo. Fui trabalhar, voltei ainda algumas vezes ao desconforto da noite anterior, mas o trabalho, os filhos, o amor e o tempo formam colocando tudo num lugar que parecia confortável.
As discussões já estavam estabelecidas, eram vários os fatores em que discordávamos, porém eu sempre acabava vencendo e ele fazia as minhas vontades. 
- Promete que não vai mentir pra mim, nunca?
- Prometo, claro. Você não merece ser enganada. Você é maravilhosa. O que sinto por você nunca senti por ninguém. Você me completa. Com você sou feliz. Com você é para a vida inteira...- eu acreditei em tudo isso, mesmo.
Tudo voltou a ficar bem.
A Silvana iria se acostumar com isso, as pessoas que me cercavam não sabiam de nada e dali para frente o Moacir encontrou o amor verdadeiro. Não havia porque me preocupar. Problemas todos temos.
A cirurgia foi marcada para o dia 30 de setembro de 2005. 

O começo das dores 




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