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terça-feira, 19 de março de 2013

Ando cansada demais, parece que não tenho o pique de antes. Ontem cheguei em casa com frio e sem vontade de fazer nada. A única coisa era me enfiar debaixo das cobertas e assistir novela. Esqueci a Veja e o livro na escola. Comi uma canja e cama.
Tinha algumas coisas bem interessantes para considerar ontem, mas não tive ânimo. Nenhuma tristeza real. Talvez algum pré-sentimento, mas não quero pensar sobre isso. Quero usar a pouca força para me fortalecer. Esse tempo é para isso. Isso é necessário.

Domingo fui mesmo conhecer o padre Gilmar. Nossa, como ele realmente torna a missa em algo diferente. Um pouco estranho aos padrões tradicionais, mas gostei muito. O Gui também gostou e talvez a gente comece a frequentar a igreja católica. Têm algumas questões que não me agradam nessa igreja, mas acho que me desagradam menos do que os pastores capitalistas das igrejas evangélicas.
Quando fui morar em Maringá, com meu pai, eu era obrigada a ir à missa todos os domingos e foi ali nesse contexto maluco que Deus foi se revelando para mim. Já devo ter falado sobre isso, mas não me canso de contar que aprendi sobre a existência de Deus sozinha. Não houve ninguém que tenha me conduzido a fé. Deus me puxou pela mão e me fez percebê-Lo e eu O percebi.
A vida com um alcoólatra não é fácil.
Saber qual é o humor do bêbado quando ele chega em casa passado da hora é uma atividade, ao mesmo tempo necessária e impossível. Desenvolvi uma técnica.
Quando eu ouvia o ronco do carro dele chegando, corria para a sala e ficava sentada esperando que ele abrisse a porta. Eu tinha exatos 2 segundos para observar-lhe o cabelo. Se estivesse bagunçado ele estava bravo. Praticamente todos os dias ele estava bagunçado e isso era sinal de longas horas ouvindo a mesma ladainha de sempre. O final da noite era sempre uma tensão geral e uma tristeza misturada como ar de deboche típico dos adolescentes. Rir por dentro, ridicularizá-lo por dentro era tudo o que eu podia fazer.
Por fora, o ar de filha respeitadora e feliz que tanto o alegravam contribuíam para que as horas infindáveis acabassem por findar.
Aula no dia seguinte, noite mau dormida e milhares de segredos escondidos no coração me faziam ser uma adolescente revoltada, sem poder demonstrar minha revolta. Vai ver que é por isso que hoje não guardo minha revolta. Falo tudo o que sinto e não freio meus impulsos. Aprendi que guardar e frear na verdade são tão prejudiciais quanto liberar. Optei pelo segundo por saber que este não adoece só a mim. Vai comigo quem me feriu. A lei da sobrevivência. Tem dado certo até hoje. As doenças psicossomáticas ainda não me atingiram.
Foi numa dessas noites de dores internas que conheci Deus. Meu pai chegou tarde como de costume, ouvi o motor do carro. Mas diferente das outras noites, nessa, eu teria de enfrentar o leão sozinha, a Gládis estava viajando. Não seria nada fácil. Mas nesse dia eu falei com Deus. Deitada no quarto escuro eu pedi.
"Deus, se o senhor existe, não deixe o meu pai vir aqui no meu quarto me chamar."
Assim, com essas palavras eu aprendi que Deus podia ouvia meus pedidos e naquele dia ele fez mais do que ouvir, Ele atendeu.
Quem conheceu o doutor João Gualberto Ferreira Jr sabe que só mesmo Deus poderia o impedir de estragar com a noite de seus subordinados. E isso aconteceu.
Infelizmente não consigo me lembrar da emoção dos dias seguintes a essa grande descoberta, mas sei que houve.
E assim passei a conversar com Deus nos momentos de angústia.  Muitos dos meus pedidos não foram atendidos, mas muita coisa que nem pedi, ganhei. E assim fui desenvolvendo uma relação com Deus que perdura até hoje.
Sei que muitas pessoas que não viveram metade do que sofri, não sabem a experiência maravilhosa que é saber que Deus existe e está com a gente nos momentos mais drásticos. Talvez seja para me dar essa certeza que Deus permitiu  tudo o que permitiu para mim.
Consigo encontrar alguma semelhança entre mim e Jó. Salvo a diferença de Jó ser santo e eu pecadora.
A adversidade fortalece a fé e no meu caso ela fez mais que isso. Ela criou a fé.
Depois de ter tido essa experiência eu comecei a ter sensações estranhas em relação as missas obrigatórias que nós não frequentávamos.
Certamente já falei dessa passagem.
De quando eu aprendi que fugir da missa tornava a minha semana um inferno ainda maior que já era e que assim acabei por perceber que Deus só queria de mim uma hora semanal de devoção. Deixei de ir para os encontros com a moçada para sentar na igreja e ouvir e não entender nada do que o padre dizia. Não importava pra Deus isso.O importante era que eu estava lá, pensando Nele e dando o meu pouco tempo para Ele.
Assim a semana ia bem, mesmo.
Aprendi que Deus queria meu tempo e de recompensa me dava uma semana boa. Isso aprendi sozinha com Deus.
Lembrei disso ontem, quando contei para a Vilmara o que tinha me ocorrido no dia e ela me respondeu:
"Viu, você foi a igreja ontem e Deus fez um milagre."
Lembrar de suas palavras, nesse instante me faz os olhos em lágrima. Ter uma vida com Deus é o que me fez milagrosamente ser quem eu sou. Tudo, absolutamente tudo que sou, devo a Ele.
Ter uma amiga como a Vilmara é também algo maravilhosamente importante para mim.

Vá falei da experiência com Deus e da minha alegria por ter uma amiga tão minha amiga, agora me falta ainda falar do milagre de ontem e para isso preciso voltar para a sexta-feira.
Você lembra que eu disse que me aconteceu algo ruim, mas que eu queria pensar sobre o ocorrido para não escrever motivada pela raiva?
Pois é, a raiva não passou ainda e talvez não passe nunca, mas o término do problema me dá uma alegria que não cabe em mim. Os problemas são sempre dolorosos e ruins, mas a solução deles dá uma alegria que modifica a vida. Os problemas são necessários para as alegrias virem intensas. Que venham mais tristezas cheias de mais alegrias. Pago o preço.
Bem, estou eu dando minha aula tranquilamente na sexta, quando uma pedagoga anti-ética qualquer me aparece diante da minha mesa me mandando retroceder de uma ação. Mandei tarefa de casa para meus alunos e  para isso eles precisavam levar os livros para casa. Livros esses que por incompetência da direção da escola, precisam ser compartilhados com os alunos da tarde.
Pois bem, como ela não conseguiu que eu recolhesse os livros com os alunos, ela resolveu passar por cima da minha autoridade de professora e exigiu que os alunos devolvessem os livros. Como se ela de fato tivesse alguma autoridade superior a mim. Sou professora, estou fazendo o meu trabalho e ninguém tem o direito de interferir e me expor tão levianamente.
Claro que minha reação não podia ser diferente, os alunos estavam presenciando o diálogo macabro então eu para encurtar a cena, pedi que eles devolvessem os livros, peguei minhas coisas e sai da sala. Ficar ali, totalmente desmoralizada era a última coisa que eu queria.
Ao chegar na sala dos professores fui recepcionada pela rainha suprema que aos gritos me disse:
"Até segunda ordem os livros ficam em sala de aula."
E eu rapidamente num tom muito mais equilibrado que o dela, pedia:
"Então a senhora faça uma ata dizendo isso, porque daí eu vou atrás de livros para os alunos."
Quando a pessoa se desequilibra ela não grita, ela urra. Aos urros me veio a reposta:
"Eu que mando aqui, se eu quiser eu faço, se eu não quiser eu não faço e eu não vou fazer."
Claro que não ia, acho que essa lição ela já deve ter aprendido:
Não escreva nada que possa constituir prova contra você. Oras, se é dela a gestão da escola, é dela também a responsabilidade de que todas as instâncias aconteçam de forma adequada. Se é direito de todos os alunos terem livro, porque é que alguns não tem?
Porque no final do ano anterior ela tinha um prazo para requerer livros novos, e ela não o fez da forma correta. Vieram livros, mas não suficientes. Uma professora reprovou praticamente uma turma toda, então o número de alunos do 9º ano seria muito maior. Mas como saber disso? Não há conselho de classes? Claro que há, mas a gestora precisa querer se inteirar disso. Como já escrevi várias vezes aqui, os interesses dessa senhora me parecem duvidosos.
E aqui começa o que eu só soube ontem, claro, e que vou chamar de milagre, embora não seja um milagre na definição exata da palavra, afinal é completamente compreensível que meus alunos tenham agido dessa forma. É tudo o que se espera dos alunos. É para isso que estou lá.
Apesar do desejo e da intervenção negativa, meus alunos me conhecem e sabem a que vim.
Depois que terminou a aula, os representantes da turma foram até a direção e lhe apontaram suas falhas, bem como a falha da pedagoga anti-ética. A diretora, segundo relato dos meus alunos, continuou contando dinheiro, sem olhá-los dando a impressão de pouco caso. Ma isso não os demoveu do que foram fazer lá. Continuaram apontando as diversas falhas, saíram dizendo que tirariam xerox das páginas de tarefa, para não serem prejudicados. Claro que fizeram isso, mas antes ainda tiveram que ouvir  que o custo do xerox seria meu, ainda mais uma vez os alunos foram em minha defesa dizendo que pagariam o valor.
Quando foram à biblioteca, encontraram alguns livros didáticos, irados por não verem razão desses livros estarem esquecidos em uma estante, voltaram até a direção da escola e questionaram-na. A resposta que obtiveram foi de que não havia livro para todos, então não tinha porque os livros estarem em sala de aula. Os meninos me disseram que tão logo ela falou isso, retrucaram que poderia não ser suficiente, mas já ajudava.
Oras, meninos e meninas tão novos e tão mais sábios que gente velha.
Pense em eles me contando isso. Não posso negar e nem vou fazer isso. A alegria foi tão grande, mas tão grande que não coube em mim.
Meus alunos, além de me defender, fizeram minha tarefa. Esses mesmos alunos que enquanto alunos da professora reprovadora eram considerados "I.N.S.U.P.O.R.T.Á.V.E.I.S" em letras garrafais para melhor representar a maneira com é dito deles e de tantos outros.
Para encurtar essa já longa história, (eu e a minha mania incansável de tornar em histórias longas os acontecimentos cotidianos) ontem resolvi dar uma olhadinha no horário da tarde da turma da professora reprovadora e tal não foi minha surpresa de constatar que não há aula de Português nas sextas-feiras para a turma da tarde. Isso indica que tanto faria se os meus alunos levassem o livro ou não, visto que na segunda pela manhã os livros estariam repousando calmos e serenos esperando serem utilizados no período da tarde.
Tudo isso para que? para mostrar que mesmo quando estou fazendo tudo direitinho tem sempre um fdp pra vir me atazanar, ou ainda: Mesmo que tenham fdp atrapalhando, há gente que sabe do meu trabalho, do meu caráter e gostam de mim ao ponto de enfrentarem batalhas junto comigo.
Sou beija-flor apagando fogo da floresta, mas não estou sozinha e isso é maravilhoso.
Obrigada meus Deus por ter me permitido presencias mais essa grande experiência de ter sentido nesse mundo.

Sou desagradável, e tenho atitudes desagradáveis porque ensino meninos a pensar. Quanto mal estou causando para a humanidade? Ainda bem que não nasci na Idade Média, senão nessas alturas já estava morta.





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