Para quem quer aprender a gostar
"Não
tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça
coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama.
Saia
cantando e olhe alegre. Recomenda-se: encabulamentos, ser pego
em flagrante gostando; não se cansar de olhar, e olhar; não
atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível
com beijos, 'aquela conversa importante que precisamos ter';
arquivar, se possível, as reclamações pela pouca atenção
recebida. Para quem
ama, toda atenção é sempre pouca. Quem ama
feio não sabe que a pouca atenção pode ser toda a atenção
possível. Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção
cobrando a que deixou de ter.
Não
tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: asinceridade;
não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá
de qualquer jeito); abrir o coração; contar a verdade do tamanho
do amor que sente. Jogue por
alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes
sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no
auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida
impede ser. Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando
besteira, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração
bater como no tempo do Natal infantil. Reviendo os carinhos que
intuiu em criança. Sem medo de dizer eu quero, eu gosto, eu estou com
vontade.
Talvez aí
você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou
bonitar fazendo o seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito (a
ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a mais
verdadeira expressão de tudo o que você é, e nunca: deixaram, conseguiu,
soube, pôde, foi possível, ser.
Se o amor
existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe mais com ele e
suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala.
Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente
para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar
fazer o outro feliz."
Arthur da Távola
Trabalhei essa crônica com os alunos do 9º ano e achei tão interessante e verdadeira que quero compartilhar com meus leitores.
Difícil foi fazer a correção das questões de interpretação e não deixar transparecer que eu estava me sentindo diretamente atingida pelo texto.
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