Foi ao som dela que me casei.
Me voltou à memória o som que tocava na manhã daquele sábado de 1997.
Escolhi a manhã, porque lá na ainda adolescência dos meus quase 22 anos (me casei no dia 08 de novembro, uma semana antes do meu aniversário) eu queria algo que não me consumisse de ansiedade pelo dia todo. Dez horas da manhã eu estava pronta. Tivemos um pequeno atraso por causa de uns padrinhos, mas tudo correu da maneira que deve ser um casamento de uma moça misteriosamente sobrevivente de uma vida que gera mais delinquentes do que moças casadouras.
A Rita era contra e posso perceber isso pelas expressões dela nas fotos. Ela estava certa, como sempre. Eu estava errada como sempre. Mas no dia me senti feliz. Penso que me senti, afinal não me lembro de quase nada que envolva meus sentimentos.
Posso relatar fielmente cada detalhe técnico, mas não posso dizer uma palavra real sobre meus sentimentos.
Só sei que casei e que tudo correu conforme era para correr.
Quando decidimos nos casar, pensamos em não comemorar nada. Chamaríamos o pastor para um almoço e uma benção, nada mais. Diferente de tudo isso acabamos tendo uma festa bonita com direito a muitas alegrias. Concluo isso pelas fotos.
É muito estranho estar tão longe desse sentimento que me motivou o casamento. Fato é que muitos sentimentos me motivaram o casório. Não necessariamente o amor absoluto. Certamente não foi o amor a mola motivadora. Claro que naquele momento eu não sabia disso. Eu acreditava realmente que estava me casando por amor. Talvez até seja, talvez, apenas talvez.
Eu ainda busco respostas para essa que foi uma das maiores escolhas que fiz. Não obtive nada que me aquietasse o coração. Quando eu souber, corro escrever aqui.
Ouvindo essa música consigo entender que a escolha estava no meu subconsciente muito mais pela melodia gritada que causa mais angústia do que a letra que demonstra um amor verdadeiro, portanto eterno.
Entre os preparativos para o casamento, que cuidei com muita precisão, estava a escolha da pessoa que tocaria no ritual religioso. A regente do coral foi escolhida para tirar a música no órgão. Foi uma tarefa difícil, ela teve que tirar de ouvido. Deve ter se cansado de ouvir a música angustiante, mas ficou muito bonito. Aliás tudo ficou muito bonito. Não vou colocar nenhuma foto hoje, porque ainda me sinto horrível naquele dia. Certamente isso vai se desfazer com o passar do tempo, quando eu for envelhecendo e fatidicamente fique muito mais feia do que qualquer outra fase da minha vida.
Me casei, fui para a lua-de-mel, voltei para a vida nova. A vida nova se mostrou assustadoramente pior do que a vida anterior, mas já era tarde demais. Eu tinha até o último momento para dizer não, mas eu disse sim. Não havia volta, o jeito foi enfrentar o casamento da melhor maneira possível. Não sou perfeita e meu temperamento forte se uniu ao temperamento maníaco-depressivo do João numa mistura química explosiva. Explodimos 6 anos e meio depois num dia horrível. O dia do fim combina muito mais com o tom angustiante da música do começo e não tem nenhuma significação com a letra da música. A liberdade que veio depois do dia do fim se configurou na esperança de dias melhores. Eles vieram, mas trouxeram junto dias difíceis.
Viver é difícil porque pensando no pretérito imperfeito e no pretérito mais que imperfeito eu me pego com medo do presente imperfeito e do futuro imperfeito. Quando na verdade a construção da perfeição desses novos tempos é determinada por mim. E quando me recai o peso da responsabilidade, me pego com um medo danado. Tenho poucos medos, mas o medo de ser responsável por coisas erradas me consome.
Nem quero pensar sobre isso.
Agora quero ouvir um pouco dessa bela canção que apesar de angustiante traz uma letra maravilhosa que expressa sentimento intenso que sempre foi a marca da minha vida.
É interessante perceber que a música tem uma afinidade com a história que vivo hoje.
As músicas apresentam muito de mim.
Sou intensa no que vivo, apesar de que tudo se desfaz e eu olho para as coisas e elas me parecem estranhamente desconhecidas. Isso me incomoda.
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