A saída do hospital foi tão parecida a todas as outras saídas de pai e mãe com filho recem-nacido, exceto pelo fato de que mesmo parecendo tudo tão normal, ambos sabiam que nada era normal. Ninguém ousou falar disso.
Ele estacionou o carro em frente ao hospital, desceu e abriu a porta de trás para mãe e filho. Ele estava pensando na segurança deles e isso, naquela hora era encantador, mas não suficiente...
Tinham algumas coisas para comprar, então antes de voltarem para a pequena cidade, foram as compras no shopping.
Sim, a mãe mesmo pós-operada foi às compras. Ela não pode se dar ao luxo de enfraquecer nem nesse tempo. Travesseirinho para o Simão, cinta para a mãe, algumas outras coisas que menos importantes agora, na época eram fundamentais.
Quando a mãe dizia às vendedoras que acabara de sair do hospital, elas não acreditavam e ao verem o corte da cirurgia vertical, ficavam horrorizadas e diziam que a mãe era louca de não estar de repouso na cama.
Como repousar se a guerra estava apenas começando?
Apesar de toda angústia, era preciso manter a calma e evitar de pensar no que poderia vir pela frente. Mesmo contrária ao ditado Carpe Diem, não havia outra coisa a não ser aproveitar os momentos de família feliz que eram apresentados por aquele tempo, aquele pouco tempo.
Enquanto a mãe comprava as coisas, pai seguia segurando seu filho com cuidado que ainda me enchem os olhos, e talvez permaneçam comigo ainda muito tempo.
Quando chegaram em casa, apesar das dores insuportáveis, a mãe não queria deitar.
O pai fez a sopa, tentando agradar levou para que ela tomasse na cama. Dormiram deitados emocionados e de certo modo felizes pois o filhinho, mesmo pequeno tinha nascido saudável e isso era bênção.
A mãe desejou que tudo isso permanecesse eternamente, mas já sofria por saber que nada seria como ela queria. Ainda assim não imaginou que os próximos capítulos vissem recheados de tanta maldade.
No dia seguinte, a mãe já optou por trocar a sopa por algo mais agradável ao paladar e a noite estavam comendo sanduíches comprados fora.
Talvez não fosse a melhor alimentação para uma mãe que estaria amamentando pelos próximos meses.
Nem estresse, nem péssima alimentação secaram o leite e mesmo que a mãe padecesse de males físicos e mentais, filho crescia e se desenvolvia perfeitamente.
A alegria momentânea acabou com a viagem do pai. Era véspera de carnaval e mesmo assim ele precisava viajar. Muito trabalho extra o esperava em Foz do Iguaçu, assim ele dizia e ela fingia acreditar para não o ver brigar.
Ela estava muito sensível e abalada e qualquer alteração no humor dele a atingiria em cheio e foi bem assim mesmo que aconteceu. A empregada da casa estava apavorada com o choro incontrolável que viu. O pai bebia conhaque e estava com a expressão alterada e a mãe chorava compulsivamente.
Era hora de falar a verdade e organizar as próximas etapas e o pai fugia disso mais uma vez.
Nada se resolveu e os dois acabaram acertando as contas da melhor maneira que sabiam se acertar. Seus corpos se desejavam e então tudo ficava para depois.
Ele foi embora com as mesmas promessas de cuidados e atenção. A mãe ficou com o pequeno Simão. Não ficaria sozinha, mas junto com o pequeno menino, ficavam também fantasmas, sentimentos, dores e dívidas que trariam dores ainda maiores...
Nossa, revivendo na memória tantas coisas, me sinto triste. É como sofrer de novo a mesma coisa.
O dia está pesado, o ar empoeirado e o cinza do céu indica chuva.
Parei, escrevi, reli... e ainda não consegui demonstrar 10% do que senti ou sinto...
Quem sabe ainda me lembre dos detalhes particulares quando meu filho me perguntar.
Bom seria se eu não precisasse nunca mais falar disso.
Hoje, na hora do almoço me senti bastante zonza, andei cambaleante, como se meu corpo fosse puxado para um lado. Meu ouvido deu sinal de eco interno. Há quem diga que pode ser labirintite... não duvido nada...
Aguardem próximos capítulos...
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