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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Nessa tarde estou sozinha. Madrasta e irmã viajando. Eu e a Mona podemos fazer o que quisermos. Eu vou ouvir música e dançar a tarde toda sozinha com a casa só para mim e ela vai pegar a chave secreta do Scort e vai sair, sabe Deus fazer o que.
Para completar ainda mais a tarde diferente, até o presidente da república está em Maringá. Não sabíamos que por isso meu pai não teria expediente na receita e corríamos o risco dele voltar para casa mais cedo. Se existe um possibilidade de algo ruim acontecer, certamente acontecerá e poderá ser ainda pior do que o pensado. Assim aconteceu. 
Meu pai chegou no meio da tarde e bêbado. 
Me pegou no meio das minhas danças adolescentes, o que me deixou um pouco sem graça, mas meu problema era menor. Desligar o som e ir para o quarto resolveria tudo. Encrenca mesmo enfrentaria a Mona. 
O que pude fazer para ajudá-la, fiz. Quando meu pai perguntou dela, disse apenas que tinha ido a costureira. Quando ele fez a seguinte pergunta, fique azul, lilás e roxa.
"Mas de carro?"
- De carro? Não sei se de carro, ela só me disse que ia à costureira.
"sim, ela foi de carro! Como que ela sai de carro e você não sabe?"
-Pai, nós moramos num apartamento. Ela disse que ia à costureira e saiu pela porta. Não sei se saiu a pé ou de carro. Não vi.
"Quando ela chegar, diga que quero falar com ela."
Sem mais nenhuma palavra ele entrou em seu quarto e por lá ficou me deixando com o coração aos pulos, o estômago embrulhado e com uma sensação de que as coisas iam ficar pretas pro lado da Mona. Eu não estava enganada, só não sabia que acabaria envolvida no problema até as tampas e que conheceria uma face horrorosa do homem que me gerou.
Coloquei um bilhete do lado de fora da porta dos fundo dizendo que a Monalisa só poderia entrar em casa depois de conversar comigo. Como não existem celulares ainda o jeito foi apelar para um sinal rústico. Moramos no primeiro andar, tem uma escada de emergência  que dá acesso ao terraço onde temos as janelas dos quartos das meninas. Assim fico no meu quarto esperando que ela aparecesse.
Foram infindáveis minutos. 
Claro que ela já sabia que o pai estava em casa. O carro estava na garagem. O problema era explicar como uma garota de 17 anos tinha uma chave reserva do carro da mãe e mais: como ela ousava usar o carro sem permissão. Se isso, por si só já é complicado, pense agora num pai desequilibrado e bêbado ouvindo as explicações. Que reação teria? Eu não queria estar na pele da Monalisa. 
Mas como o que não tem remédio, remediado está, o jeito será tomar uma superdose de coragem e enfrentar a fera. Estou aliviada pois minha parte nessa história acaba aqui. Pelo menos por uns poucos minutos penso assim.
Quando a Mona entrou em casa pensei que ouviria gritos histéricos do João pelo restante da tarde e noite. Estava enganada como sempre.É incrível como me engano com as coisas e com as pessoas desde sempre.
Cinco minutos depois ouvi meu pai me chamando. Ele queria que eu fosse buscar cerveja para ele na padaria. A padaria fica longe de casa. Eu estarei fora por pelo menos meia hora.
Mais cerveja, ah não, a coisa vai longe mesmo.
Quando volto, estranho o silêncio. Coloco a cerveja na geladeira e vou assistir televisão. Meu coração está muito aflito. Se os gritos me assustam, o silêncio me assusta ainda mais.


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