Como ela faz algo errado e pelas vias legais meu pai deveria fazer um escândalo, deixá-la de castigo e tomar-lhe a chave reserva, tudo o que foge disso por si só já é estranho. Agora, ouvir as palavras da Monalisa me caíram direto no fígado. Um gosto amargo de fel me veio até a boca. Meu pai que no meu pensamento, era mais pai dela do que meu, afinal ele a viu crescer diariamente quanto que a mim via esporadicamente. Se ele tivesse feito tal proposta para mim, seria amarga, mas menos amarga do que com ela. Sempre pensei assim.
Ele convidou-a para conhecer a vida. Eles sairiam, iriam a uma boate e curtiriam a noite e assim tudo estaria esquecido. Abominável.
Ela tem apenas 2 anos a mais que eu. 17 anos em 1990. Dá pra imaginar o que tudo isso significa? Nesse dia meu respeito por ele escorreu ralo abaixo.
Monalisa conversa com Dr João e vem me contar assustada. O plano é me levar jantar, me dar vinho e deixar que eu durma. Meu plano com a Mona era jantar, se possível e não tomar uma única gota de vinho. E assim eu fiz. Como logo, nosso plano adolescente foi descoberto pelo psicopata, o vexame estava instaurado. O restaurante se tornou o palco da mais nojenta peça do teatro pastelão de um pai ofendido por filhas que mentem. Aos gritos nos xinga de muitas coisas. Se antes eu estava amarela pela biles que me veio a boca, agora estou roxa de vergonha. Meu pai é um homem sem escrúpulos.
A volta para casa nos reservava muitas outras agressões e dessa vez vou acabar apanhando junto. Não por ter feito algo errado, mas porque não bebi e não dormi para que ele levasse sua enteada para uma noitada. Eu não estou errada. Não é justo que eu sofra por causa dos erros dos outros. Não é justo que ele vá descontar em mim sua falta de caráter.
Subimos para casa com muito medo. Quando chegamos, o João ligou para a Cládis (mãe da Mona) foi então que tive uma ideia. Pedi para falar com ela. Eu precisava de tempo para poder fugir. A essas alturas meu pai já tinha me obrigado a ficar em seu quarto esperando pela surra.
Falei com ela e deixei transparecer meu medo.
- Tia, as coisas não são bem como ele está contando. A Mona precisa falar com você. Por favor, acredite em mim.
Ela então resolveu falar com a filha e eu consegui escapar do quarto do meu pai. Peguei uma muda de roupa, coloquei numa sacola e fugi. Esperei que a Mona também saísse. Parecendo duas ratinhas em pânico fomos dormir na casa do namorado da Mona. Um namoradinho de adolescente, mas foi nosso herói naquela noite. A mãe dele nos cuidou e pudemos respirar com segurança. Não dormi nada nessa noite.
Nesse dia perdi meu pai. O homem que estava lá em casa me era totalmente estranho. Criei um asco que pensei que não existia. Só agora, 23 anos depois, consigo entender que o que ele fez me marcou profundamente. Precisa de uma assepsia, um curativo e de um pouco de repouso.
Hoje eu preciso de colo...
Nenhum comentário:
Postar um comentário