A Monalisa voltou para casa no dia seguinte. Eu não voltei mais.
Quando penso onde se construiu meu temperamento forte, vejo que o tenho de longa data.
Depois de tudo o que presenciei, era impossível conviver com meu pai. Na manhã seguinte liguei para a marion e contei tudo o que tinha acontecido. Ela agiu comigo como sempre: Me ouviu, me deu alguns conselhos e disse que tudo ficaria bem. Bem mais tarde eu soube que ela espalhou para a família inteira que as drogas estavam tomando conta de mim. Que eu estava delirando e inventando mentiras a respeito do meu pai.
Alguém consegue alcançar a dor que passei? Não. Nem eu mesma consigo entender como consegui. Se agora relembrando já me é dolorido...
A semana seguinte ao horror foi de muita agitação. Passei umas noites na casa de uma amiga, mas não podia ficar lá durante o dia. Minhas roupas ficaram num banheiro desativado do clube. Depois de algumas noites, ficou difícil arrumar uma desculpa para a mãe da minha amiga, foi então que resolvi procurar um albergue.
Esse albergue nunca me saiu da memória. Claro que não tive estômago nem para comer a comida, nem muito menos para dormir junto com umas 10 indigentes que estavam por lá. O lugar era longe de tudo. Sai correndo no escuro e voltei na minha amiga. Meu coração saltava, eu estava verdadeiramente com medo. Consegui dormir lá pela última vez. No dia seguinte teria que dar um rumo pra minha vida. Mas com 15 anos tudo era bastante improvável.
Passei o dia perambulando e a noite fui conversar com o Alex. Ele não me deu nem chance de me explicar. Me segurou em frente a sua casa e ligou para meu pai. 15 minutos depois lá estava um pai zeloso e preocupado. Mas eu sabia que ele estava bêbado e que chegando em casa a conversa seria outra.
Minha sorte foi que meu pai estava com um amigo. Isso me livrou de uma surra imediata. Aliás, não apanhei nem depois. Fomos para nossa conversa habitual regada a pizza de aliche e alho, claro que nem de longe se ousou falar da proposta indecente daquele porco imundo. Meu futuro estava traçado. Como eu tinha dito para ele alguns dias antes, agora ele faria minha vontade.
"Você vai para o colégio interno que você foi visitar. Não era isso que você queria?"
Embora eu ja nem soubesse mais o que queria, não havia outra solução. Minha mãe não me queria. Eu não queria meu pai...
IAP é a luz no fim do túnel.
No dia seguinte arrumei minhas coisas e meu pai com seu amigo idiota foram me levar até a escola. Me lembro de ter trocado poucas palavras com meu pai, mas o amigo quis fazer alguma piadinha e fui bastante indelicada com ele. Já não tinha nada a perder mesmo.
Eles me jogaram lá com uma mala e uma mochila. Nada que tinha na mala poderia ser usado ali.
Não tinha nenhuma saia e as que consegui foram por meios ilícitos. Eu estava completamente sozinha. Abandonada a própria sorte.
Mas Deus estava comigo. Eu sentia isso. A essa altura já tinha feito uma prova da existência Dele.
Tudo o que passei ou viria a passar foi amenizado ao ponto do suportável por Deus e eu tinha absoluta certeza disso.
Vou parar agora para poder relembrar cada detalhe dessa mudança radical que vivi quando tinha 15 anos. Não é tarefa fácil, mas necessária.
Talvez algum leitor desavisado leia sobre as drogas e pense que eu fiz uso delas. Não, nunca fiz uso de nenhuma droga ilícita. Mas a marion sempre gostava de me atribuir tal feito. Ela dizia que meu nariz eternamente vermelho era motivado por cocaína. Ainda tenho o nariz vermelho. Acho que é meio genético. O João Gualberto também o tem. Mas sobre ele não posso garantir nada.
Estou surpresa pelos sentimentos que me afloraram com esses pensamentos. Acho que encontrei o fio da meada...
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