Primeiro dia de férias. Eu fiz o almoço... Eu coloquei minha ajudante pra fazer faxina e ela me colocou para cozinhar... Minhas ajudantes sempre acabaram sendo minhas amigas... Somos mulheres, nos entendemos...
A semana foi muito triste. O Gui me agrediu verbalmente. Hoje não consigo relatar as coisas como de fato foram, apenas posso dizer que me lembrei da escala de dor da menina do livro A culpa é da Estrelas. Numa escala de 0 a 10 Hanzel Grace avaliava suas dores terríveis em 9. Ao ser questionada pela enfermeira sobre sua resistência à dor, a menina disse que estava guardando o 10 para algo pior. E esse pior veio com a perda de Gus.
Estou falando disso porque também pensei nas minhas todas dores que passei e nada me pareceu páreo para a que vivi com os gritos do João Guilherme. Não lhe atribuo 10 porque consigo ver que posso ter dores ainda maiores. E saber disso me deixa ainda mais triste.
Ele saiu de casa e fiquei aqui com os olhos queimando com o sal das lágrimas. Sem conseguir orar, ler ou fazer qualquer coisa racional acabei cedendo ao cansaço das noites de insônia e dormi um pouquinho até que mais uma crise de choro me atacasse.
Na manhã seguinte mais agressões quando ele veio buscar suas roupas para trabalhar e eu apenas joguei-as para fora num ato de demonstrar que a noite de choro não tinha existido.
Os filhos não sabem o quanto destroem seu pais. Os pais não demonstram o quanto sofrem. E nesse esconder das coisas vamos seguindo cicatrizando e cicatrizados.
As ofensas da manhã seguinte foram talvez piores do que as primeiras, mas quando se tem a ferida, por pior que seja a outra facada ela vai parecer menos dolorida.
Desde que as ouvi, elas se tornaram minhas aliadas insistentes. Não me livro delas... Elas não saem de mim. Mas apesar de tudo isso estou calma. As sessões de terapia realmente me fizeram maravilhas.
Ninguém pode me atribuir nenhuma culpa. Eu sou inocente...
Voltei a falar com a Rose e isso acabou sendo muito positivo para que o Gui veja as coisas como de fato são.
Continuo infinitamente grata a Deus pois encontro cuidado em sua companhia... Sei de Sua proteção.
Só não sei porque Ele me quer ainda mais forte. Tenho medo da dor 10...
Voltando ao almoço de hoje:
Minha ajudante perdeu sua filha de uma maneira muito violenta. Um louco literal pegou sua menina de 8 anos e a matou com requintes de crueldade. Como ele é mentalmente perturbado cumpriu um internamento e foi liberado poucos dias atrás. Desde então, vejo que ela está angustiada. Hoje falamos mais abertamente sobre tudo e então ela chorou. Queria que ela conseguisse ler A Cabana. Talvez o livro lhe trouxesse algum conforto.
Estou triste com ela. Sua dor 10 não só já chegou, como permanece a mais de 5 anos...
Sobre o João Guilherme: Terei uma semana para me livrar da angústia das palavras ouvidas. Uma semana para restabelecer a carga do amor incondicional, uma semana de sono tranquilo...
Sobre o almoço: Deus querido, olhe por essa vida...
Sobre todas as coisas: Fechada para descanso... férias minúsculas, mas ainda sim, FÉRIAS.
Nenhum comentário:
Postar um comentário