O que ouvi ao telefone ecoa em mim até hoje. 20 anos se passaram, talvez mais 20 sejam necessários para que eu consiga esquecer ou entender e aceitar a noite horrorosa que passei nessa terça-feira macabra.
Mas não é sobre isso que quero falar. Meu foco é a estratégia que criei 2 segundos após ter desligado o telefone sem ter dito mais do que alô.
Falar do que me acontecera a alguém? Quem? Não, não há ninguém que entenda isso, seria uma exposição desnecessária, visto que a situação era irreversível. Ninguém conhecia a Marion e suas maldades melhor do que eu. Tudo já estava decidido pra ela, logo para mim também.
Ao subir as escadas que me levavam ao 3 andar do dormitório feminino, onde se encontrava o meu quarto, tive uns dois minutos para recompor a feição amarelo diarreia que se apresentava em meu rosto. Respirei fundo e abri. a porta As lágrimas que ficaram no canto dos olhos foram imperceptíveis para minha colega de quarto que apenas perguntou se era algum problema e eu respondi: "Não, minha mãe só queria saber se cheguei bem."
A decisão já tinha sido tomada e eu não abriria mão dela por nada. Viveria no IC os últimos dias da minha vida sem que nada pudesse transparecer. Continuei sendo exatamente igual, namorando igual, estudando igual, me alimentando igual.
Nessa época namorava um menino chamado Willian, ele era legal comigo e eu estava aproveitando para ser feliz o restinho de tempo que me cabia. Foi assim até que nos despedimos na rodoviária para as férias de julho. Quando entrei no ônibus e nenhuma pessoa conhecida podia me ver, chorei. Chorei de Castro a Curitiba sem parar. Um choro quieto, lágrimas doídas. Rumo a um destino absolutamente incerto.
Os detalhes da despedida das amigas, da escola e do Willian também tenho guardados aqui. Sofri quietinha. Ninguém soube de nada. Só eu...
Essa tinha sido minha estratégia. Segui meu objetivo rigorosamente a risca porque é pra isso que servem as estratégias. Para serem pensadas e seguidas criteriosamente a risca.
Se eu tivesse mudado os planos e me feito de coitadinha, talvez as coisas tivessem tomado outro rumo, mas não era outro rumo, era esse. Tinha que ser esse.
Foi assim que aprendi o APER (Amanhã os problemas estarão resolvidos).
Isso facilitou muito as coisas para mim. Não falar da dor me parecia não existir dor. Assim armazenei a força para as batalhas posteriores. Foram muitas as batalhas posteriores.
A única coisa que não saiu como eu planejei, foi meu desempenho escolar.
A Rita me chamou em sua sala, logo que voltamos das férias, para me perguntar porque minhas notas tinham baixado. Não eram vermelhas, mas eram aquém do meu potencial, segundo ela. Ainda aí menti, colocando a culpa no meu namorico com o Willian. A essas alturas Wilian já era página virada Eu já tinha sofrido a separação. Estar com ele novamente não significava mais nada pra mim. Nosso namoro durou mais algumas semanas e se perdeu. Não teve um ponto final... ficou uma reticência.. como quase tudo na minha vida.
Djavan - encantador
Não estabeleça nenhuma relação do texto com a música, pois não há.
Escolhi apenas porque adoro Djavan e essa música é uma das minhas preferidas
"Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim!!"
O plano era simplista, mas ainda assim bom. Tudo estava perfeito O estudo do inimigo, o estudo das ações, os objetivos. A única coisa que fugiu do controle foi o exército. Seu exército não cumpriu a risca suas determinações. No livro Arte da Guerra o autor é taxativo quanto ao soldado desobediente. Eu não penso assim... Eu encontro algo bom na sua má atuação. Eu encontro a mão de Deus. E eu fico feliz porque Ele cuida de tudo, inclusive do soldado desobediente. Devo confessar que seu soldado é infinitamente mais aceitável do que seu líder fariseu.
Bosta, a raiva está passando...
Mas eu tenho memória de elefante... essa é uma história que também vai demorar uns bons anos para ser fagocitada.