Parei com o remédio, não estava me fazendo nenhum efeito.
Não estou me sentindo tão ansiosa assim. Tenho dormido bem e a noite toda.
A única coisa que preciso controlar são as múltiplas tarefas que estou fazendo ao mesmo tempo.
Vou começar a me policiar em relação a isso.
Os conselhos de classe acabaram, por sorte. Amanhã a vida volta ao normal.
Essa semana é de festa lá na escola do Pedroca. Cada dia uma atividade diferente. Ontem gincana. Hoje cabelo maluco. Na agenda o recadinho da profe: Mamãe tivemos cama elástica e o Pedro tirou a meia e não sabia qual era sua meia. Se a meia foi errada, favor me avisar.
Claro que a meia estava errada, mas mais que isso. Ela estava fedida. Tadinho do outro menino. Tão pequenino e já com um chulé de gente grande.
Quando se está feliz de fato pelo caminho que se seguiu, não é preciso olhar para trás...
Olhar para trás indica dúvida e dúvida não é felicidade plena.
Nesses momentos, pare, sente no chão e reavalie as decisões.
Só vale a pena ser humano se usar o instinto e a inteligência juntos. Do contrário vai pegar o caminho errado e ficará andando em círculos.
Estou lendo um livro fantástico:

"Lembro-me
de um ano que nossa comuna tentou plantar amendoim em pequenos pedaços
de terra, mas a safra foi decepcionante. Depois da colheita, um grupo de
meninos mais ou menos da minha idade - 6 ou 7 anos - foi para o terreno
plantado, levando pás e cestos de bambu, na esperança de encontrar,
como fazíamos com os inhames, alguns amendoins perdidos. Depois de horas
e horas de busca, o resultado foi quase nenhum. Mas eis que um dos
meninos descobriu, nos limites do terreno, um buraco de rato. Que sorte
para um bando de garotos famintos! Ele começou a cavar imediatamente.
Ficamos todos em volta dele, como que atraídos por um ímã. Ratos sempre
estocam alimentos para o inverno daí o misto de excitação e inveja com
que observávamos a cena. Estávamos todos de pé, porque se acreditava que
ajoelhar ao lado de um buraco de rato fazia o túnel desabar e
desaparecer. O menino cavava o mais rápido possível, com o traseiro para
cima. Várias vezes quase perdeu o túnel, bloqueado pelos ratos. Então,
vimos que havia ramificações em direções diferente, com três pontos de
armazenagem: um de amendoins descascados, outro de amendoims meio
descascados e um terceiro de amendoins com casca. Os ratos, porém, não
foram encontrados. Provavelmente, tinham uma rota secreta de fuga.
O
menino de sorte levou para casa quase meio cesto de amendoins.
Secretamente, fiquei com pena dos ratos que tinham perdido a comida.
Afinal, eles também poderiam morrer de fome no inverno. "Mundo cruel" eu
pensei, "em que crianças competiam com ratos por comida." (pág. 24)
Querido neto leitor, esse livro estará lá na nossa velha estante.
Leia, menino, você vai se encantar como sua vó está encantada.