Cheguei e me deitei, queria dormir. Como não pude, fui tomar banho, comi alguma coisa e fiquei ouvindo baladas e elas me carregaram direto para minha adolescência e hoje essas lembranças me deixaram em silêncio.
Fecho os olhos e consigo ver como as coisas aconteceram. Sinto tanto por ter só pequenos pedaços e não o filme todo.
Queria lembrar dos detalhes, dos cheiros, das cores, dos sabores... nada!
Era comum a gente fazer a dança da vassoura. Geralmente eram os meninos que ficavam com o objeto varredor. Um deles começava a dança com a inimiga vassourinha e logo escolhia um casal para separar. Entregava-a para o outro garoto e dançava com a menina escolhida. Iam assim até que nenhum deles mais queria abrir mão da garota. Acabava a música, os pares já ficavam formados e a dança da vassoura já não fazia mais sentido. Era sempre assim em todas as nossas festinhas. Não tinha bebida alcoólica nem cigarro, só dança e beijo e era gostoso.
Algumas meninas acabavam sempre sobrando e para minha infelicidade a Gisele era uma delas. Nessa época ela era bem gordinha, sendo assim os meninos não queriam nada com ela. Sobrava pra mim, claro, pois no dia seguinte a Marion me falava horrores por eu ter dançado a festa inteira.
Sei que o problema não era eu ter dançado, mas a Gisele não ter dançado. Logo cedo fomos tendo uma relação baseada na comparação e assim na injustiça.
Não éramos iguais, isso não deveria ser problema... mas era.
No Campo Salles ela adorava um menino chamado Lauro. Éramos vizinhos e amigos.
O Lauro tinha uma irmã chamada Adriana, sempre íamos na casa deles jogar War, Jogo da Vida, Banco Imobiliário ou Detetive.
Na copa de 1986 assistimos os jogos juntos enquanto picávamos papeis para comemorar depois e íamos para a rua jogar os papeis e festejar a vitória. Um tempo que me traz umas lembranças tão boas. Engraçado que não lembro deles em nossa casa, embora os jogos fossem meus. Talvez a Marion não gostasse de crianças bagunçando a casa ou ainda talvez eu não me sentisse confortável em brincar na minha casa. Fico com as duas opções porque me parece mais real.
Além dos jogos, brincávamos de elástico, de mãe, e até de casinha na área de recreação do prédio. Aí juntavam mais crianças e era uma alegria só.
Tínhamos o Alan, nosso amigo Down.
Lembro com tristeza dele. Não sei se fomos tudo que poderíamos ter sido para ele.
Éramos crianças, mas me angustio de pensar que poderíamos ter sido mais.
Ele tinha o Bruno, um irmão que não gostava dele e nós não gostávamos do Bruno por isso.
Alguns tempo depois começamos a olhar o Bruno com melhores olhos. Não era fácil ter um irmão down, não era fácil pelo preconceito e nós o julgávamos. Ainda bem que logo aceitamos que ele não era tão ruim como pensávamos e ele, mesmo mais distante, foi nosso amigo.
O Alan tinha uma vida solitária, embora sempre estivesse conosco. Ele lia jornais enquanto todos nós liamos gibis. Ele comprava balinhas redondinhas e distribuía para todos e tinha uma mania horrível de arrancar seu próprio cabelo e ficar analisando por muito tempo o fio. Já tinha uma falha grande na cabeça por causa de sua mania, mas era um encanto. Só que o mais marcante dele eram seus inúmeros jogos de botão e sua incansável vontade de jogar.
Ele descia todos os dias para jogar com quem estivesse por lá. arrumava tudo e esperava. Sempre um de nós parávamos tudo e jogávamos uma partida com ele. Fazíamos campeonatos e víamos ele sorrir. Na época provavelmente não sabíamos que isso era uma atitude bonita, fazíamos por instinto.
Ele era nosso amigo e sabíamos que ele precisava de nós. Sua idade mental era como a nossa naquele tempo e permaneceu nela enquanto nós crescíamos e naturalmente nos distanciávamos dele e de seus jogos de botão.
Lembrar disso me dá uma saudade doida. Era um tempo de ser feliz com os amigos.
Não sei se o Alan morreu. Como é engraçado isso. Eu fui visitar minha vó, uns 5 anos atrás, e soube notícias do Alan, mas já não sei o que foi que a zeladora do prédio - a mesma daquele tempo - me disse.
Lembro de coisas de quase 30 anos atrás e não lembro de coisas mais recentes.
O que quero esquecer, permanece, o que preciso lembrar esqueço.
Queria saber o que aconteceu com o Alan, com o Lauro, com a Adriana, com a Leila, com o Bruno, com a Ciça e o Rafael, comigo e com os outros que esqueci o nome.
Que será que é feito de todos nós?
Queria poder voltar lá e ficar sentada olhando a gente pequena sendo feliz...
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