Mas umas férias com gosto diferente...
Não sei se essa é de fato a casa (na minha lembrança o portão era na outra rua), mas pela pesquisa ou estou enganada ou não há mais a casa. Fato é que essa é como me lembro.
Nessa casa recebemos a visita do Inri Cristo, também nessa casa conheci meu padrasto que se tornou um pai, mas foi ali também que comecei a sentir as primeiras agressões da Marion. Não vou falar disso hoje. Só adianto que se tratava de um absurdo que só podia sair de uma mente doente. Acredito que nessa época eu devia ter uns 7 anos. É isso, eu tinha 7 anos. Estudava no Martinus, fazia primeira série e perdi minha mochila. Um mistério que carrego pela vida.
Como posso ter perdido minha mala com todo o meu material? Perdi e apanhei muito por causa disso. Mas a maldade não tem relação com isso. O tema era sexualidade.
Ainda lembro do salão que a Marion montou. Tinha sala de massagem e uma amiga dela foi morar, por um tempo, lá em casa. Ficou pouco, pois elas brigaram e o motivo era homem.
Incrível que vou escrevendo e as memórias vão aparecendo. Foi ali nesse salão que a Marion cortou meu cabelo bem curtinho, parecendo menino. Meu cabelo era grosso e ficava espetado e isso devia deixá-la feliz. Minha sorte é que ela rasgou minhas fotos.
Acho que passávamos necessidade nessa época, provavelmente ela deve ter quebrado a cara fazendo o salão, pois logo saímos dalí. Ela se "casou" com o Ney e fomos morar no Sidarta.
Durante a presença do Ney em casa, eu penso que fui protegida. Ele tinha pena e cuidava de mim. Sempre foi muito carinhoso comigo. Ele foi meu pai.
Nas brigas deles, eu sempre entendia que ele estava certo. Nunca falei nada, mas como até hoje minhas expressões faciais falam por mim, ela sabia e isso só ampliava potencialmente sua raiva.
Meus cabelos cresceram e mais outra vez ela cortou, dessa vez torto para eu ficar ridícula e eu fiquei.
E fiz isso calada. Eu e a minha mania de deixar algumas pessoas me fazerem de idiota.
Tudo que a Marion fez pra mim, recebi sem levantar a voz, sem argumentar, sem questionar.
Quieta, como até hoje eu fico quando estou chateada.
Me soa estranho isso. Sou uma leoa enlouquecida na maioria das situações de conflito, mas em algumas poucas, me sinto uma lesma num caracolzinho frágil. Me recolho e me protejo numa casquinha que não me dá proteção alguma contra o meu predador. Posso contar nos dedos de uma mão as pessoas que me causaram essa desproteção. Sofri calada por cada injustiça que me causaram. E todas elas me deixaram com um gosto diferente da vida...
Algo como o sabor azedo, ruim e delicioso do limão com sal, que muita vezes comi enquanto fui adolescente.

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