“Vingarmo-nos
de um mal de que fomos vítimas é privarmo-nos do conforto de
gritarmos contra a injustiça.”
Cesare
Pavese
Me
deparei com essa frase e logo fui procurar saber quem era seu autor.
Um
poeta italiano, comunista que se suicidou quando tinha 42 anos. Até
aqui nada de anormal. Muitos poetas foram ou são comunistas e muitos
mais se suicidaram ou vão se suicidar. Pensar, refletir e analisar a
vida particular e alheia é ofício de doido mesmo. Mas o que me
chamou atenção foi seu diário póstumo. Um livro que foi lançado
depois de sua morte com o título de O OFÍCIO DE VIVER. foram 15
anos de escritos que viraram livro. Não vou sossegar enquanto não
ler.
Fazendo
uma breve pesquisa, encontrei:
Não
há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o
mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial
lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto,
ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à
piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por
definição, o voluptuoso encontro de dois espíritos. Para quê,
então? Não para obter favores, porque o único favor que um
espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e
toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja
indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza. Resta a
hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração
amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades
surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende
a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que
parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta,
portanto.
E ainda:
E ainda:
"A
dor não é em absoluto um privilégio, um sinal de nobreza, uma
lembrança de Deus. A dor é uma coisa bestial e feroz, banal e
gratuita, natural como o ar. É impalpável, escapa a todos e a
qualquer luta; vive no tempo, é a mesma coisa que o tempo; se possui
sobressaltos e gritos, é tão-somente para deixar mais indefeso quem
sofre nos momentos subsequentes, nos longos momentos em que se torna
a provar o tormento passado e aguarda-se o seguinte. Esses
sobressaltos não são a dor em si mesma, são momentos de vitalidade
criados pelos nervos para que se possa sentir a duração da
verdadeira dor, a tediosa, exasperante, infinita duração do
tempo-dor. Quem sofre está sempre em estado de espera - do
sobressalto e do novo sobressalto. Chega a hora em que se prefere o
acesso do grito à sua espera. Chega a hora em que se grita sem
necessidade, desde que se rompa a corrente do tempo, desde que se
sinta que está acontecendo alguma coisa, que a duração eterna da
dor bestial interrompeu-se por um instante - ainda que para ser
intensificada. Às vezes, surge a desconfiança de que a morte - o
inferno - consistirá ainda no fluir de uma dor sem sobressaltos, sem
voz, sem momentos, só tempo e eternidade, incessante como o fluir do
sangue num corpo que não morrerá mais."
Certamente preciso ler isso...
Ah! Sobre a frase inicial, ela tem razão de ser...
Estive
fora por uns dias... voltei...
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