Sem ainda saber o que prefiro, vou começar justificando minha ausência de ontem.
Uma querida amiga veio me visitar. Ela mora longe daqui, precisava lhe dispensar todo o carinho e atenção. Isso me fez um bem danado.
Quando ela foi embora, preferi continuar no estado de contentamento em que me encontrava Vir aqui falar do que passei ontem só me pioraria o ânimo e me traria mais aborrecimentos.
Mas cá estou eu para me posicionar frente aos últimos acontecimentos.
Acredite se quiser, ontem fui da tristeza ao doce encanto passando por uma ira sobrecomum, tudo isso num rápido instante de 3 horas.
As coisas estão pesadas demais para mim. Me sinto cansada.
Depois de 3 aulas, nas quais fiz um esforço intenso no objetivo de não deixar que meus problemas pessoais interferissem no meu trabalho, me sentindo carregada, desci para o recreio e então a secretária da escola me chamou: "Tem uma pessoa querendo falar com você, acho que você não vai gostar muito." Me assustei, vai ver que é a intimação que estou esperando, vai ver que é mais um problema... estranho... meu coração acelera e lá vou eu ver o que é... FLORES... Sim, eu recebi flores... lindas rosas vermelhas... Há quem diga que fiquei branca como papel... eu me senti profundamente triste.
Todos os professores me perguntando e tecendo comentários sobre a delicadeza de se receber flores no trabalho e eu me derretendo por dentro em lágrimas que não podiam cair alí. Têm horas que tudo o que preciso é de um buraco no chão que me leve direto ao Japão.
Tive que lhes contar o remetente e o motivo de tê-las recebido. E assim aguentar ainda mais prejulgamentos vindos de pessoas que tem uma visão parcial.
Se gostei das flores?
Como posso responder a essa pergunta?
Flores são doces encantos e por alguns dias nos fazem lembrar que fomos importantes para alguém. Sempre pensei que era isso, mas agora já sei que flores não nos dão essa garantia e por serem tão belas, sensíveis e frágeis podem facilmente ser usadas com outro objetivo que não a manifestação dos sentimentos puros que brilhantemente se encaixariam na beleza das rosas vermelhas.
Dizem que quando as flores não são dadas com amor, elas morrem ainda em botão. Na manhã seguinte estarão murchas representando o coração de quem as enviou.
Hoje cedo fui correndo na esperança da natureza me dar a resposta que preciso. Não, as flores não morreram, do contrário estão lindas e se abrindo deixando o arranjo ainda mais encantador... e por isso mais dor.
Meu buquê que rosas vermelhas me lembrou meu vasinho feinho de violetas que nunca mais deu flores.
Minha pequena plantinha que fica em cima da geladeira permanece viva ainda, apesar dos anos e das tantas vezes que a esqueço lá. Me parece que ela insiste em continuar viva apesar de tudo.
Tal como as rosas vermelhas abertas em flor insistentes, minha frágil violetinha é o símbolo de que algumas coisas permanecem para sempre.
Há mais coisas em comum entre essas duas plantinhas... mas não posso falar delas agora.
O espantalhozinho é um intruso nessa cena. Ele faz parte de um outra violetinha que ganhei.... falo dessa já falecida plantinha em um outro dia.
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
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