Se queremos ser saudáveis, temos que preservar nossas emoções. Esse pensamento é do Augusto Cury e concordo com ele.
Escrever sobre as coisas que me afligiram e ainda afligem é uma forma de me livrar delas. É como se eu, colocando em palavras já as tenha armazenado em algum lugar. Posso então, tirá-las da minha vida. Tem sido assim. Por isso escrevo.
Sei que alguns dos leitores deve achar que na vida real devo ser uma amargurada. Não a sou. Passo o dia todo dando risada e fazendo brincadeirinhas as vezes fofas, as vezes irônicas com todo mundo e estou numa luta constante para que pontos negativos do meu caráter sejam transformados rapidamente. Quero ser feliz e fazer os outros felizes. Não fico chorando pelos cantos e se alguns pensamentos ruins me vêm a mente, procuro me desfazer deles logo.
Claro que estou numa batalha interna para que meu lado bom sempre prevaleça. Não desanimo nem desisto de crescer.
Tenho alguns planos para o meu futuro e quero colocá-los em prática o quanto antes, mas ainda tem algumas feridas que vez ou outra precisam de oxigenação. Mas os avanços são visíveis a olho nu.
Leitor preocupado, não se preocupe comigo, o pior já passou. Meus filhos, meus alunos, meu trabalho, meus livros e o tempo (aquele fdp do tempo) são ótimos terapeutas. O João Gualberto só foi uma ferida que precisava ser limpa. É como um bicho de pé. Quem já teve, sabe como é. Ou se fura a carne e espreme até que saia ele e seus filhinhos, ou ele vai crescer ali e criar uma comunidade no seu corpo. Falar dele foi importante, pois eu sempre atribui toda a culpa a marion. Ela teve sim sua culpa, mas o João não pode ser livrado do que causou. Agora vejo claramente o quanto ele foi cruel. Doente, mas cruel
Estou lendo mais um livro fantástico:
Lembram de O lado bom da vida? Escrevi sobre ele algum tempo atrás. Pois é, ele continua na lista dos mais vendidos da Veja. Esse é do mesmo autor.
É narrado em primeira pessoa. O próprio Leonard contando seu dia. O dia que ele vai se suicidar depois de assassinar um ex-amigo. A forma da narrativa é simples e cativante. Não tem como não se envolver com a trama. Super recomendo.
Meu clube do Livro lá na escola vai começar sua atividades amanhã. Estou mega ansiosa (ansiedade da boa). Quero escolher 3 livros que vou doar. Quero que sejam lidos. Queria saber expressar o quanto estou feliz com meu projeto. Não consigo. Só posso dizer que me sinto com vontade de chorar de emoção ao saber que muitas pessoas estão ansiosas comigo pela ideia de dividirmos livros e conhecimentos. Nesses momentos me sinto verdadeiramente útil. Estou muito feliz, muito mesmo!!
Parando por aqui, tenho várias coisinhas para fazer antes que o sol se ponha.
Guardei Sem ter porque Nem por razão Ou coisa outra qualquer Além de não saber como fazer Pra ter um jeito meu de me mostrar
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
A Monalisa voltou para casa no dia seguinte. Eu não voltei mais.
Quando penso onde se construiu meu temperamento forte, vejo que o tenho de longa data.
Depois de tudo o que presenciei, era impossível conviver com meu pai. Na manhã seguinte liguei para a marion e contei tudo o que tinha acontecido. Ela agiu comigo como sempre: Me ouviu, me deu alguns conselhos e disse que tudo ficaria bem. Bem mais tarde eu soube que ela espalhou para a família inteira que as drogas estavam tomando conta de mim. Que eu estava delirando e inventando mentiras a respeito do meu pai.
Alguém consegue alcançar a dor que passei? Não. Nem eu mesma consigo entender como consegui. Se agora relembrando já me é dolorido...
A semana seguinte ao horror foi de muita agitação. Passei umas noites na casa de uma amiga, mas não podia ficar lá durante o dia. Minhas roupas ficaram num banheiro desativado do clube. Depois de algumas noites, ficou difícil arrumar uma desculpa para a mãe da minha amiga, foi então que resolvi procurar um albergue.
Esse albergue nunca me saiu da memória. Claro que não tive estômago nem para comer a comida, nem muito menos para dormir junto com umas 10 indigentes que estavam por lá. O lugar era longe de tudo. Sai correndo no escuro e voltei na minha amiga. Meu coração saltava, eu estava verdadeiramente com medo. Consegui dormir lá pela última vez. No dia seguinte teria que dar um rumo pra minha vida. Mas com 15 anos tudo era bastante improvável.
Passei o dia perambulando e a noite fui conversar com o Alex. Ele não me deu nem chance de me explicar. Me segurou em frente a sua casa e ligou para meu pai. 15 minutos depois lá estava um pai zeloso e preocupado. Mas eu sabia que ele estava bêbado e que chegando em casa a conversa seria outra.
Minha sorte foi que meu pai estava com um amigo. Isso me livrou de uma surra imediata. Aliás, não apanhei nem depois. Fomos para nossa conversa habitual regada a pizza de aliche e alho, claro que nem de longe se ousou falar da proposta indecente daquele porco imundo. Meu futuro estava traçado. Como eu tinha dito para ele alguns dias antes, agora ele faria minha vontade.
"Você vai para o colégio interno que você foi visitar. Não era isso que você queria?"
Embora eu ja nem soubesse mais o que queria, não havia outra solução. Minha mãe não me queria. Eu não queria meu pai...
IAP é a luz no fim do túnel.
No dia seguinte arrumei minhas coisas e meu pai com seu amigo idiota foram me levar até a escola. Me lembro de ter trocado poucas palavras com meu pai, mas o amigo quis fazer alguma piadinha e fui bastante indelicada com ele. Já não tinha nada a perder mesmo.
Eles me jogaram lá com uma mala e uma mochila. Nada que tinha na mala poderia ser usado ali.
Não tinha nenhuma saia e as que consegui foram por meios ilícitos. Eu estava completamente sozinha. Abandonada a própria sorte.
Mas Deus estava comigo. Eu sentia isso. A essa altura já tinha feito uma prova da existência Dele.
Tudo o que passei ou viria a passar foi amenizado ao ponto do suportável por Deus e eu tinha absoluta certeza disso.
Vou parar agora para poder relembrar cada detalhe dessa mudança radical que vivi quando tinha 15 anos. Não é tarefa fácil, mas necessária.
Talvez algum leitor desavisado leia sobre as drogas e pense que eu fiz uso delas. Não, nunca fiz uso de nenhuma droga ilícita. Mas a marion sempre gostava de me atribuir tal feito. Ela dizia que meu nariz eternamente vermelho era motivado por cocaína. Ainda tenho o nariz vermelho. Acho que é meio genético. O João Gualberto também o tem. Mas sobre ele não posso garantir nada.
Estou surpresa pelos sentimentos que me afloraram com esses pensamentos. Acho que encontrei o fio da meada...
Quando penso onde se construiu meu temperamento forte, vejo que o tenho de longa data.
Depois de tudo o que presenciei, era impossível conviver com meu pai. Na manhã seguinte liguei para a marion e contei tudo o que tinha acontecido. Ela agiu comigo como sempre: Me ouviu, me deu alguns conselhos e disse que tudo ficaria bem. Bem mais tarde eu soube que ela espalhou para a família inteira que as drogas estavam tomando conta de mim. Que eu estava delirando e inventando mentiras a respeito do meu pai.
Alguém consegue alcançar a dor que passei? Não. Nem eu mesma consigo entender como consegui. Se agora relembrando já me é dolorido...
A semana seguinte ao horror foi de muita agitação. Passei umas noites na casa de uma amiga, mas não podia ficar lá durante o dia. Minhas roupas ficaram num banheiro desativado do clube. Depois de algumas noites, ficou difícil arrumar uma desculpa para a mãe da minha amiga, foi então que resolvi procurar um albergue.
Esse albergue nunca me saiu da memória. Claro que não tive estômago nem para comer a comida, nem muito menos para dormir junto com umas 10 indigentes que estavam por lá. O lugar era longe de tudo. Sai correndo no escuro e voltei na minha amiga. Meu coração saltava, eu estava verdadeiramente com medo. Consegui dormir lá pela última vez. No dia seguinte teria que dar um rumo pra minha vida. Mas com 15 anos tudo era bastante improvável.
Passei o dia perambulando e a noite fui conversar com o Alex. Ele não me deu nem chance de me explicar. Me segurou em frente a sua casa e ligou para meu pai. 15 minutos depois lá estava um pai zeloso e preocupado. Mas eu sabia que ele estava bêbado e que chegando em casa a conversa seria outra.
Minha sorte foi que meu pai estava com um amigo. Isso me livrou de uma surra imediata. Aliás, não apanhei nem depois. Fomos para nossa conversa habitual regada a pizza de aliche e alho, claro que nem de longe se ousou falar da proposta indecente daquele porco imundo. Meu futuro estava traçado. Como eu tinha dito para ele alguns dias antes, agora ele faria minha vontade.
"Você vai para o colégio interno que você foi visitar. Não era isso que você queria?"
Embora eu ja nem soubesse mais o que queria, não havia outra solução. Minha mãe não me queria. Eu não queria meu pai...
IAP é a luz no fim do túnel.
No dia seguinte arrumei minhas coisas e meu pai com seu amigo idiota foram me levar até a escola. Me lembro de ter trocado poucas palavras com meu pai, mas o amigo quis fazer alguma piadinha e fui bastante indelicada com ele. Já não tinha nada a perder mesmo.
Eles me jogaram lá com uma mala e uma mochila. Nada que tinha na mala poderia ser usado ali.
Não tinha nenhuma saia e as que consegui foram por meios ilícitos. Eu estava completamente sozinha. Abandonada a própria sorte.
Mas Deus estava comigo. Eu sentia isso. A essa altura já tinha feito uma prova da existência Dele.
Tudo o que passei ou viria a passar foi amenizado ao ponto do suportável por Deus e eu tinha absoluta certeza disso.
Vou parar agora para poder relembrar cada detalhe dessa mudança radical que vivi quando tinha 15 anos. Não é tarefa fácil, mas necessária.
Talvez algum leitor desavisado leia sobre as drogas e pense que eu fiz uso delas. Não, nunca fiz uso de nenhuma droga ilícita. Mas a marion sempre gostava de me atribuir tal feito. Ela dizia que meu nariz eternamente vermelho era motivado por cocaína. Ainda tenho o nariz vermelho. Acho que é meio genético. O João Gualberto também o tem. Mas sobre ele não posso garantir nada.
Estou surpresa pelos sentimentos que me afloraram com esses pensamentos. Acho que encontrei o fio da meada...
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Se passam poucos minutos e a Mona aparece na sala com cara de medo. Quanto me conta as propostas de meu pai, não consigo acreditar.
Como ela faz algo errado e pelas vias legais meu pai deveria fazer um escândalo, deixá-la de castigo e tomar-lhe a chave reserva, tudo o que foge disso por si só já é estranho. Agora, ouvir as palavras da Monalisa me caíram direto no fígado. Um gosto amargo de fel me veio até a boca. Meu pai que no meu pensamento, era mais pai dela do que meu, afinal ele a viu crescer diariamente quanto que a mim via esporadicamente. Se ele tivesse feito tal proposta para mim, seria amarga, mas menos amarga do que com ela. Sempre pensei assim.
Ele convidou-a para conhecer a vida. Eles sairiam, iriam a uma boate e curtiriam a noite e assim tudo estaria esquecido. Abominável.
Ela tem apenas 2 anos a mais que eu. 17 anos em 1990. Dá pra imaginar o que tudo isso significa? Nesse dia meu respeito por ele escorreu ralo abaixo.
Monalisa conversa com Dr João e vem me contar assustada. O plano é me levar jantar, me dar vinho e deixar que eu durma. Meu plano com a Mona era jantar, se possível e não tomar uma única gota de vinho. E assim eu fiz. Como logo, nosso plano adolescente foi descoberto pelo psicopata, o vexame estava instaurado. O restaurante se tornou o palco da mais nojenta peça do teatro pastelão de um pai ofendido por filhas que mentem. Aos gritos nos xinga de muitas coisas. Se antes eu estava amarela pela biles que me veio a boca, agora estou roxa de vergonha. Meu pai é um homem sem escrúpulos.
A volta para casa nos reservava muitas outras agressões e dessa vez vou acabar apanhando junto. Não por ter feito algo errado, mas porque não bebi e não dormi para que ele levasse sua enteada para uma noitada. Eu não estou errada. Não é justo que eu sofra por causa dos erros dos outros. Não é justo que ele vá descontar em mim sua falta de caráter.
Subimos para casa com muito medo. Quando chegamos, o João ligou para a Cládis (mãe da Mona) foi então que tive uma ideia. Pedi para falar com ela. Eu precisava de tempo para poder fugir. A essas alturas meu pai já tinha me obrigado a ficar em seu quarto esperando pela surra.
Falei com ela e deixei transparecer meu medo.
- Tia, as coisas não são bem como ele está contando. A Mona precisa falar com você. Por favor, acredite em mim.
Ela então resolveu falar com a filha e eu consegui escapar do quarto do meu pai. Peguei uma muda de roupa, coloquei numa sacola e fugi. Esperei que a Mona também saísse. Parecendo duas ratinhas em pânico fomos dormir na casa do namorado da Mona. Um namoradinho de adolescente, mas foi nosso herói naquela noite. A mãe dele nos cuidou e pudemos respirar com segurança. Não dormi nada nessa noite.
Nesse dia perdi meu pai. O homem que estava lá em casa me era totalmente estranho. Criei um asco que pensei que não existia. Só agora, 23 anos depois, consigo entender que o que ele fez me marcou profundamente. Precisa de uma assepsia, um curativo e de um pouco de repouso.
Hoje eu preciso de colo...
Como ela faz algo errado e pelas vias legais meu pai deveria fazer um escândalo, deixá-la de castigo e tomar-lhe a chave reserva, tudo o que foge disso por si só já é estranho. Agora, ouvir as palavras da Monalisa me caíram direto no fígado. Um gosto amargo de fel me veio até a boca. Meu pai que no meu pensamento, era mais pai dela do que meu, afinal ele a viu crescer diariamente quanto que a mim via esporadicamente. Se ele tivesse feito tal proposta para mim, seria amarga, mas menos amarga do que com ela. Sempre pensei assim.
Ele convidou-a para conhecer a vida. Eles sairiam, iriam a uma boate e curtiriam a noite e assim tudo estaria esquecido. Abominável.
Ela tem apenas 2 anos a mais que eu. 17 anos em 1990. Dá pra imaginar o que tudo isso significa? Nesse dia meu respeito por ele escorreu ralo abaixo.
Monalisa conversa com Dr João e vem me contar assustada. O plano é me levar jantar, me dar vinho e deixar que eu durma. Meu plano com a Mona era jantar, se possível e não tomar uma única gota de vinho. E assim eu fiz. Como logo, nosso plano adolescente foi descoberto pelo psicopata, o vexame estava instaurado. O restaurante se tornou o palco da mais nojenta peça do teatro pastelão de um pai ofendido por filhas que mentem. Aos gritos nos xinga de muitas coisas. Se antes eu estava amarela pela biles que me veio a boca, agora estou roxa de vergonha. Meu pai é um homem sem escrúpulos.
A volta para casa nos reservava muitas outras agressões e dessa vez vou acabar apanhando junto. Não por ter feito algo errado, mas porque não bebi e não dormi para que ele levasse sua enteada para uma noitada. Eu não estou errada. Não é justo que eu sofra por causa dos erros dos outros. Não é justo que ele vá descontar em mim sua falta de caráter.
Subimos para casa com muito medo. Quando chegamos, o João ligou para a Cládis (mãe da Mona) foi então que tive uma ideia. Pedi para falar com ela. Eu precisava de tempo para poder fugir. A essas alturas meu pai já tinha me obrigado a ficar em seu quarto esperando pela surra.
Falei com ela e deixei transparecer meu medo.
- Tia, as coisas não são bem como ele está contando. A Mona precisa falar com você. Por favor, acredite em mim.
Ela então resolveu falar com a filha e eu consegui escapar do quarto do meu pai. Peguei uma muda de roupa, coloquei numa sacola e fugi. Esperei que a Mona também saísse. Parecendo duas ratinhas em pânico fomos dormir na casa do namorado da Mona. Um namoradinho de adolescente, mas foi nosso herói naquela noite. A mãe dele nos cuidou e pudemos respirar com segurança. Não dormi nada nessa noite.
Nesse dia perdi meu pai. O homem que estava lá em casa me era totalmente estranho. Criei um asco que pensei que não existia. Só agora, 23 anos depois, consigo entender que o que ele fez me marcou profundamente. Precisa de uma assepsia, um curativo e de um pouco de repouso.
Hoje eu preciso de colo...
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Nessa tarde estou sozinha. Madrasta e irmã viajando. Eu e a Mona podemos fazer o que quisermos. Eu vou ouvir música e dançar a tarde toda sozinha com a casa só para mim e ela vai pegar a chave secreta do Scort e vai sair, sabe Deus fazer o que.
Para completar ainda mais a tarde diferente, até o presidente da república está em Maringá. Não sabíamos que por isso meu pai não teria expediente na receita e corríamos o risco dele voltar para casa mais cedo. Se existe um possibilidade de algo ruim acontecer, certamente acontecerá e poderá ser ainda pior do que o pensado. Assim aconteceu.
Meu pai chegou no meio da tarde e bêbado.
Me pegou no meio das minhas danças adolescentes, o que me deixou um pouco sem graça, mas meu problema era menor. Desligar o som e ir para o quarto resolveria tudo. Encrenca mesmo enfrentaria a Mona.
O que pude fazer para ajudá-la, fiz. Quando meu pai perguntou dela, disse apenas que tinha ido a costureira. Quando ele fez a seguinte pergunta, fique azul, lilás e roxa.
"Mas de carro?"
- De carro? Não sei se de carro, ela só me disse que ia à costureira.
"sim, ela foi de carro! Como que ela sai de carro e você não sabe?"
-Pai, nós moramos num apartamento. Ela disse que ia à costureira e saiu pela porta. Não sei se saiu a pé ou de carro. Não vi.
"Quando ela chegar, diga que quero falar com ela."
Sem mais nenhuma palavra ele entrou em seu quarto e por lá ficou me deixando com o coração aos pulos, o estômago embrulhado e com uma sensação de que as coisas iam ficar pretas pro lado da Mona. Eu não estava enganada, só não sabia que acabaria envolvida no problema até as tampas e que conheceria uma face horrorosa do homem que me gerou.
Coloquei um bilhete do lado de fora da porta dos fundo dizendo que a Monalisa só poderia entrar em casa depois de conversar comigo. Como não existem celulares ainda o jeito foi apelar para um sinal rústico. Moramos no primeiro andar, tem uma escada de emergência que dá acesso ao terraço onde temos as janelas dos quartos das meninas. Assim fico no meu quarto esperando que ela aparecesse.
Foram infindáveis minutos.
Claro que ela já sabia que o pai estava em casa. O carro estava na garagem. O problema era explicar como uma garota de 17 anos tinha uma chave reserva do carro da mãe e mais: como ela ousava usar o carro sem permissão. Se isso, por si só já é complicado, pense agora num pai desequilibrado e bêbado ouvindo as explicações. Que reação teria? Eu não queria estar na pele da Monalisa.
Mas como o que não tem remédio, remediado está, o jeito será tomar uma superdose de coragem e enfrentar a fera. Estou aliviada pois minha parte nessa história acaba aqui. Pelo menos por uns poucos minutos penso assim.
Quando a Mona entrou em casa pensei que ouviria gritos histéricos do João pelo restante da tarde e noite. Estava enganada como sempre.É incrível como me engano com as coisas e com as pessoas desde sempre.
Cinco minutos depois ouvi meu pai me chamando. Ele queria que eu fosse buscar cerveja para ele na padaria. A padaria fica longe de casa. Eu estarei fora por pelo menos meia hora.
Mais cerveja, ah não, a coisa vai longe mesmo.
Quando volto, estranho o silêncio. Coloco a cerveja na geladeira e vou assistir televisão. Meu coração está muito aflito. Se os gritos me assustam, o silêncio me assusta ainda mais.
Para completar ainda mais a tarde diferente, até o presidente da república está em Maringá. Não sabíamos que por isso meu pai não teria expediente na receita e corríamos o risco dele voltar para casa mais cedo. Se existe um possibilidade de algo ruim acontecer, certamente acontecerá e poderá ser ainda pior do que o pensado. Assim aconteceu.
Meu pai chegou no meio da tarde e bêbado.
Me pegou no meio das minhas danças adolescentes, o que me deixou um pouco sem graça, mas meu problema era menor. Desligar o som e ir para o quarto resolveria tudo. Encrenca mesmo enfrentaria a Mona.
O que pude fazer para ajudá-la, fiz. Quando meu pai perguntou dela, disse apenas que tinha ido a costureira. Quando ele fez a seguinte pergunta, fique azul, lilás e roxa.
"Mas de carro?"
- De carro? Não sei se de carro, ela só me disse que ia à costureira.
"sim, ela foi de carro! Como que ela sai de carro e você não sabe?"
-Pai, nós moramos num apartamento. Ela disse que ia à costureira e saiu pela porta. Não sei se saiu a pé ou de carro. Não vi.
"Quando ela chegar, diga que quero falar com ela."
Sem mais nenhuma palavra ele entrou em seu quarto e por lá ficou me deixando com o coração aos pulos, o estômago embrulhado e com uma sensação de que as coisas iam ficar pretas pro lado da Mona. Eu não estava enganada, só não sabia que acabaria envolvida no problema até as tampas e que conheceria uma face horrorosa do homem que me gerou.
Coloquei um bilhete do lado de fora da porta dos fundo dizendo que a Monalisa só poderia entrar em casa depois de conversar comigo. Como não existem celulares ainda o jeito foi apelar para um sinal rústico. Moramos no primeiro andar, tem uma escada de emergência que dá acesso ao terraço onde temos as janelas dos quartos das meninas. Assim fico no meu quarto esperando que ela aparecesse.
Foram infindáveis minutos.
Claro que ela já sabia que o pai estava em casa. O carro estava na garagem. O problema era explicar como uma garota de 17 anos tinha uma chave reserva do carro da mãe e mais: como ela ousava usar o carro sem permissão. Se isso, por si só já é complicado, pense agora num pai desequilibrado e bêbado ouvindo as explicações. Que reação teria? Eu não queria estar na pele da Monalisa.
Mas como o que não tem remédio, remediado está, o jeito será tomar uma superdose de coragem e enfrentar a fera. Estou aliviada pois minha parte nessa história acaba aqui. Pelo menos por uns poucos minutos penso assim.
Quando a Mona entrou em casa pensei que ouviria gritos histéricos do João pelo restante da tarde e noite. Estava enganada como sempre.É incrível como me engano com as coisas e com as pessoas desde sempre.
Cinco minutos depois ouvi meu pai me chamando. Ele queria que eu fosse buscar cerveja para ele na padaria. A padaria fica longe de casa. Eu estarei fora por pelo menos meia hora.
Mais cerveja, ah não, a coisa vai longe mesmo.
Quando volto, estranho o silêncio. Coloco a cerveja na geladeira e vou assistir televisão. Meu coração está muito aflito. Se os gritos me assustam, o silêncio me assusta ainda mais.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Freud é cheio de esquemas. Ele sempre encontra respostas dentro da família para as consequências, muitas vezes desastrosas, que vamos encontrando pelo caminho. Até minha terapeuta que segue uma outra linha de análise, acaba correndo para debaixo das asas de Freud quando não consegue encontrar na teoria do comportamento respostas para suas e minhas dúvidas.
Com essa magnífica introdução quero expor um pouco do comportamento maníaco-compulsivo- doentio do meu progenitor. Não precisa ser um gênio na psicanálise para saber que eu estou escolhendo errado por causa de algo lá do passado que me influencia hoje. Pensando sobre isso, fiz um trato comigo: De agora em diante minhas sessões de terapia serão apenas para resolver questões com mais de 20 anos. Chega de tapar buracos. Vamos abrir as valetas e colocar manilhas. Daqui para frente tudo vai escoar em lugar certo.
Bem, nessa primeira viagem rumo as feridas abertas do passado vamos aterrissar em 1991.
Maringá
Eu tenho 15 anos, sou uma menina frustrada. Não gosto dessa cidade cheia de árvores. As ruas sempre acabam numa rotatória que nos levam a outra rotatória. Aqui tudo parece projetado. A cidade primeiro foi feita, depois vieram as pessoas. Tão diferente da minha Curitiba com ruas truncadas e imensas avenidas. Minha vinda para Maringá foi algo mais do que previsto. Era apenas uma questão de tempo. Mas estar aqui, recomeçar a vida numa casa diferente com pessoas diferentes não é tarefa nada fácil. Quantas coisas ruins tenho vivido. Quantas infindáveis noites que passo sentada a mesa da cozinha ouvindo os brados bêbados de meu pai.
"Sabe quanto custa essa luz que você acende?"
"Você está aqui porque a tua mãe não quer mais você lá. Ela enganou você"
"Vocês não sabem nada da vida."
Depois do trabalho, seja 18, 20 ou 23 horas meu pai chega alterado e lá vamos nós. Pizza e ladainha.
A pizza é sempre de aliche e alho e óleo. Detestável. As conversas sempre giram em torno da decepção de um pai exemplar com suas filhas e enteada adolescentes.
O Brasil está empolvoroso com as maluquices políticas que surgiram já com o primeiro presidente da era democrática e nós em casa ouvindo sermões eternos. Não entendo nada de política, não entendo nada de nada. Vou para a escola de manhã e a tarde fico sem fazer nada. Não estudo, não me interesso por nada, não tenho roupas novas e meus sapatos já estão começando a dar sinal de falência. Meus pai não me enxerga. O aparelho nos dentes não sabem mais o que é manutenção e médico ou remédios são palavras inexistentes no convívio familiar. Me sinto e de fato estou abandonada.
Minha madrasta é 10 anos mais velha do que meu pai e isso a incomoda muito. A mim também. Não pela idade, mas pela menopausa em pleno vapor que faz dela uma pessoa mais horrível do que ela já é. Suas roupas e acessórios que não se combinam entre si, acrescidos da mania cafona de frequentar bingos diários faz dela uma pessoa sem nenhum atrativo social. Não gosto dela e a reciproca é verdadeira. Claro que estou convivendo com ela em 1991, não posso desafiá-la ou lhe ser mal criada como gostaria. Ficamos então no nível do suportar uma a outra para evitar problemas maiores. Já nos chega os que temos.
Não tenho pena dela, acho mesmo é que é bem feito. Achou que tava fazendo um bom negócio se envolvendo com meu pai. Bobinha.
Quando ela sai ou viaja é bem gostoso ter a casa só para mim. Posso ouvir música alta e dançar. Leio a tarde toda e não me preocupo com arrumar a casa. Adoro quando eles esquecem a porta do quarto deles destrancada. Além de rir muito do esquecimento aproveito para fuçar em gavetas e armários. Meu pai coleciona revistas de mulher pelada embaixo do colchão. Eu, sinceramente, não entendo uma mulher que aceita isso. Tá certo, homens adoram uma pornografia, mas em baixo do colchão que ela dorme? Acho meio masoquista. Dez anos mais velha, 50 kg mais gorda...
Pena que inteligência não seja o forte de uma menina de 15 anos. Se eu fosse uma investigadora nata, teria feito altas descobertas. Achei algumas poucas coisas que só farão algum sentido muitos anos para a frente. E a única descoberta realmente frutífera foi sobre minha origem. Eu descobri uma carta que comprovava que sou realmente filha do meu pai. Só isso... não foi grande novidade, meus traços físicos já me diziam isso no espelho.
Hoje, estou sozinha em casa. Minha madrasta foi viajar. Parece que minha irmã aprontou alguma das dela. Estava enganando todo mundo. Não ia para a faculdade. Meu pai enlouquecido mandou-a de volta com os avós, Claro. Nossa família tem essa tradição: Não dão conta da educação da gente, tratam logo de mandar pro outro. E junto com o filho delinquente ia uma carta culpando o outro pela criação errada. Meus avós criaram minha irmã mais velha. Meu pai, o filho caçula, era muito jovem para perder seu futuro de advogado cuidando de uma criança que veio sem ser planejada. Essa decisão dos meus avós fez com que meu pai nunca mais planejasse nada na vida e vai ver que foi por isso que ele foi exonerado do funcionalismo estadual e perdeu tudo na vida.
Preciso parar, fazer almoço para os filhos. Sábado chuvoso e friozinho... adoro.
Com essa magnífica introdução quero expor um pouco do comportamento maníaco-compulsivo- doentio do meu progenitor. Não precisa ser um gênio na psicanálise para saber que eu estou escolhendo errado por causa de algo lá do passado que me influencia hoje. Pensando sobre isso, fiz um trato comigo: De agora em diante minhas sessões de terapia serão apenas para resolver questões com mais de 20 anos. Chega de tapar buracos. Vamos abrir as valetas e colocar manilhas. Daqui para frente tudo vai escoar em lugar certo.
Bem, nessa primeira viagem rumo as feridas abertas do passado vamos aterrissar em 1991.
Maringá
Eu tenho 15 anos, sou uma menina frustrada. Não gosto dessa cidade cheia de árvores. As ruas sempre acabam numa rotatória que nos levam a outra rotatória. Aqui tudo parece projetado. A cidade primeiro foi feita, depois vieram as pessoas. Tão diferente da minha Curitiba com ruas truncadas e imensas avenidas. Minha vinda para Maringá foi algo mais do que previsto. Era apenas uma questão de tempo. Mas estar aqui, recomeçar a vida numa casa diferente com pessoas diferentes não é tarefa nada fácil. Quantas coisas ruins tenho vivido. Quantas infindáveis noites que passo sentada a mesa da cozinha ouvindo os brados bêbados de meu pai.
"Sabe quanto custa essa luz que você acende?"
"Você está aqui porque a tua mãe não quer mais você lá. Ela enganou você"
"Vocês não sabem nada da vida."
Depois do trabalho, seja 18, 20 ou 23 horas meu pai chega alterado e lá vamos nós. Pizza e ladainha.
A pizza é sempre de aliche e alho e óleo. Detestável. As conversas sempre giram em torno da decepção de um pai exemplar com suas filhas e enteada adolescentes.
O Brasil está empolvoroso com as maluquices políticas que surgiram já com o primeiro presidente da era democrática e nós em casa ouvindo sermões eternos. Não entendo nada de política, não entendo nada de nada. Vou para a escola de manhã e a tarde fico sem fazer nada. Não estudo, não me interesso por nada, não tenho roupas novas e meus sapatos já estão começando a dar sinal de falência. Meus pai não me enxerga. O aparelho nos dentes não sabem mais o que é manutenção e médico ou remédios são palavras inexistentes no convívio familiar. Me sinto e de fato estou abandonada.
Minha madrasta é 10 anos mais velha do que meu pai e isso a incomoda muito. A mim também. Não pela idade, mas pela menopausa em pleno vapor que faz dela uma pessoa mais horrível do que ela já é. Suas roupas e acessórios que não se combinam entre si, acrescidos da mania cafona de frequentar bingos diários faz dela uma pessoa sem nenhum atrativo social. Não gosto dela e a reciproca é verdadeira. Claro que estou convivendo com ela em 1991, não posso desafiá-la ou lhe ser mal criada como gostaria. Ficamos então no nível do suportar uma a outra para evitar problemas maiores. Já nos chega os que temos.
Não tenho pena dela, acho mesmo é que é bem feito. Achou que tava fazendo um bom negócio se envolvendo com meu pai. Bobinha.
Quando ela sai ou viaja é bem gostoso ter a casa só para mim. Posso ouvir música alta e dançar. Leio a tarde toda e não me preocupo com arrumar a casa. Adoro quando eles esquecem a porta do quarto deles destrancada. Além de rir muito do esquecimento aproveito para fuçar em gavetas e armários. Meu pai coleciona revistas de mulher pelada embaixo do colchão. Eu, sinceramente, não entendo uma mulher que aceita isso. Tá certo, homens adoram uma pornografia, mas em baixo do colchão que ela dorme? Acho meio masoquista. Dez anos mais velha, 50 kg mais gorda...
Pena que inteligência não seja o forte de uma menina de 15 anos. Se eu fosse uma investigadora nata, teria feito altas descobertas. Achei algumas poucas coisas que só farão algum sentido muitos anos para a frente. E a única descoberta realmente frutífera foi sobre minha origem. Eu descobri uma carta que comprovava que sou realmente filha do meu pai. Só isso... não foi grande novidade, meus traços físicos já me diziam isso no espelho.
Hoje, estou sozinha em casa. Minha madrasta foi viajar. Parece que minha irmã aprontou alguma das dela. Estava enganando todo mundo. Não ia para a faculdade. Meu pai enlouquecido mandou-a de volta com os avós, Claro. Nossa família tem essa tradição: Não dão conta da educação da gente, tratam logo de mandar pro outro. E junto com o filho delinquente ia uma carta culpando o outro pela criação errada. Meus avós criaram minha irmã mais velha. Meu pai, o filho caçula, era muito jovem para perder seu futuro de advogado cuidando de uma criança que veio sem ser planejada. Essa decisão dos meus avós fez com que meu pai nunca mais planejasse nada na vida e vai ver que foi por isso que ele foi exonerado do funcionalismo estadual e perdeu tudo na vida.
Preciso parar, fazer almoço para os filhos. Sábado chuvoso e friozinho... adoro.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Música alta nos ouvidos e as ideias enozadas. Fui andar sozinha. Segunda tive minha primeira sessão de terapia. Não gostei, pois fui confrontada comigo mesma.
Você sabe.
Você pode.
Você deve.
Como se eu não soubesse disso tudo.
Quero me curar da ansiedade doente e olhar as coisas boas que tenho. Quanta coisa boa.
Eu não tenho culpa de nada.
Parei uns instantes de escrever para ligar para o João Gualberto. Eu tive coragem. Daqui para a frente vou lutar contra meus medos. Vou enfrentar os gigantes e mudar as estratégias.
Se eu sou forte em quase tudo, serei forte comigo também. Chega de pena.
Vamos para o plano B.
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